5 de agosto de 2026 · 6 min de leitura
23 de abril, Dia de Ogum: como a casa celebra
23 de abril, Dia de Ogum: o que a data celebra, a ligação com São Jorge, como a casa honra o orixá e o que Ogum ensina sobre luta e caminho aberto.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Todo 23 de abril o Brasil fica vermelho. Tem bandeira na janela, fogos no fim da tarde, procissão, feijoada e gente pedindo bênção a São Jorge em cidade que nem terreiro tem. E aí chega a pergunta que ouço todo ano: o que essa festa tem a ver com Ogum?
Tem muito, e tem também uma parte que é pura história do Brasil. Costumo dizer aos filhos da casa que entender o 23 de abril é entender como a nossa fé aprendeu a caber dentro de um país que não a deixava existir em paz.
Neste texto explico de onde vem a data, como São Jorge e Ogum se encontraram no calendário, quem é Ogum dentro do que estudamos aqui, como celebramos o dia e um gesto simples e seguro para quem quer marcar a data em casa.
De onde vem o 23 de abril
O 23 de abril é, no calendário católico, o dia de São Jorge. A tradição conta que ele foi um soldado romano do século 4, cristão, executado por não renunciar à fé. A lenda do cavaleiro que enfrenta o dragão veio depois, na Idade Média, e é ela que grudou na imaginação popular.
No Brasil, a devoção a São Jorge é enorme, especialmente no Rio de Janeiro, onde o dia é feriado estadual e a fila na igreja dá volta no quarteirão. Em São Paulo a festa também é forte, com missa, bênção de carro e muita gente de vermelho na rua.
A Umbanda pegou carona nessa data porque, no sincretismo brasileiro, Ogum foi associado a São Jorge. E a nossa tabela de datas, que está reunida no calendário dos orixás, traz o 23 de abril como dia de Ogum.
São Jorge, Ogum e uma correspondência que varia
Vale dizer com clareza: essa associação não é uma verdade única. O sincretismo nasceu da necessidade. Pessoas escravizadas e seus descendentes foram proibidas de cultuar os orixás, e a saída foi rezar diante do santo católico guardando o orixá no coração.
O resultado é que cada região guardou um arranjo diferente. Aqui no Sudeste, Ogum é ligado a São Jorge. Na Bahia, é comum que Ogum seja ligado a Santo Antônio, e São Jorge apareça ao lado de Oxóssi. Nenhuma das duas leituras é errada.
Por isso escrevo sempre "na nossa casa". Se você frequenta outro terreiro e lá a correspondência é outra, siga a da sua casa. Não existe disputa nisso, e a fé do católico que só reza a São Jorge merece o mesmo respeito que a nossa.
Quem é Ogum na nossa casa
Na Umbanda Sagrada, que é a vertente que seguimos, Ogum ocupa o polo irradiante do Trono da Lei, que os nossos materiais também chamam de Trono da Ordem, ao lado de Iansã.
Ele não é o deus da guerra do jeito que o cinema costuma mostrar. É o orixá da Lei divina: aquilo que sustenta a ordem, separa o certo do errado e não aceita meio-termo. O símbolo dele é a espada, que na nossa leitura representa o caminho reto, a honra e a palavra cumprida.
Quem chega aqui achando que Ogum serve para atacar alguém ouve a mesma resposta de sempre. Não trabalhamos para interferir na vontade de ninguém e não fazemos trabalho contra pessoa alguma. Ogum ordena, e ordenar é diferente de atacar.
O que Ogum rege
Na prática, é a Ogum que se recorre quando a vida pede firmeza e organização. Os campos que estudamos aqui são estes:
- Caminho. A travessia de fases duras, a saída de situações travadas.
- Ordem. Colocar a casa, a rotina e as contas em pé.
- Coragem. Não a bravata, e sim a coragem de encarar o que se vinha adiando.
- Trabalho. Ogum é ligado ao ofício, ao ferro, ao que se faz com as mãos.
- Defesa da Lei. A proteção de quem age com honestidade.
Nada disso é automático nem vem com prazo marcado. Nenhum guia sério promete resultado, e a orientação costuma vir junto de uma tarefa sua.
Cor, dia da semana e saudação
Nos nossos materiais, as cores de Ogum são o vermelho, o azul-escuro e o prateado. O dia da semana é a terça-feira. A saudação é Ogunhê, e também se ouve Patacori Ogum. Outras casas usam correspondências diferentes, e está tudo bem.
Entre as ervas ligadas a ele estão a espada-de-são-jorge, a aroeira e o alecrim, entre outras. Reuni a lista completa com os usos em ervas de Ogum.
Como a casa celebra o 23 de abril
A gira, que é o nosso trabalho espiritual em roda, ganha o vermelho no dia. O congá, que é o altar do terreiro, recebe velas e flores vermelhas, e a curimba, o canto acompanhado dos atabaques, puxa pontos mais marcados, de marcha.
A corrente cumpre o preceito de três dias antes, com banhos e cuidado na alimentação, como em toda data festiva. Em algumas dessas datas também há amaci coletivo, o banho sagrado de cabeça, sempre feito com preparo e orientação da casa.
Quem vem na assistência não precisa levar nada. O passe e a consulta com as entidades não são cobrados, e ninguém vai pedir que você mude de religião. Se quiser conhecer uma gira aberta aqui no templo, em Cotia, é só chegar no horário e avisar que é a sua primeira vez.
Um gesto simples e seguro para a data
Você não precisa de terreiro nem de ritual complicado para marcar o 23 de abril. Três coisas bastam:
- Uma vela. Branca ou vermelha, num prato ou castiçal firme, em lugar seguro, longe de cortina e de papel, fora do alcance de crianças e animais. Nunca deixe vela acesa sem ninguém por perto.
- Uma espada-de-são-jorge no vaso. Ela é planta de cuidado fácil e gosta de sol filtrado. Não se ingere, e convém deixá-la longe de gato e cachorro, que podem mordiscar a folha e passar mal.
- Uma palavra de agradecimento. Em voz baixa, com as suas próprias palavras. Agradeça pelo caminho que já se abriu e peça firmeza para o que vem.
Se tiver vontade de fazer mais, faça menos e faça melhor: cumpra no dia 23 uma promessa antiga que você vem empurrando. Ogum entende de palavra dada.
Perguntas frequentes
Ogum e São Jorge são a mesma coisa?
Não. São Jorge é um santo católico, com história e culto próprios. Ogum é um orixá. O sincretismo aproximou os dois no Brasil por um motivo histórico, e essa correspondência varia de região para região e de casa para casa.
Posso festejar o 23 de abril sendo católico?
Pode, claro. Milhões de brasileiros celebram São Jorge sem nenhuma ligação com terreiro, e isso é legítimo. Aqui em casa, respeitamos a devoção do católico do mesmo jeito que pedimos respeito à nossa.
Qual é a cor de Ogum?
Nos nossos materiais, vermelho, azul-escuro e prateado. Há casas que trabalham só com o vermelho e branco, e outras com o azul-escuro. Se você frequenta um terreiro, siga a orientação de lá.
Preciso vestir vermelho no dia de Ogum?
Não é obrigatório. Na gira, a corrente usa branco nos trabalhos de direita, com detalhes na cor da data. Visitante pode ir de roupa clara e discreta, sem preocupação com a cor.
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