9 de agosto de 2026 · 7 min de leitura
Festa junina na Umbanda: fogueira, santos e orixás
Festa junina na Umbanda: o sentido da fogueira, a ligação com Xangô e com os santos de junho e como a casa vive esse mês com alegria, fé e cuidado.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Todo mês de junho alguém me pergunta a mesma coisa: "Mãe Lu, umbandista pode fazer festa junina? Isso é coisa de igreja ou é coisa de terreiro?"
Pode, e fazemos. Junho é um dos meses mais alegres do calendário brasileiro, e a Umbanda nasceu dentro dessa cultura. A fogueira, o milho, a bandeirinha e o forró não são estranhos à nossa fé: eles chegaram junto com o povo que formou esta religião.
Neste texto quero explicar o que junho significa para nós, quais correspondências o povo de terreiro faz entre os santos do mês e os orixás, o que entendemos sobre o fogo da fogueira e, muito importante, os cuidados de segurança que a alegria não pode deixar de lado.
Junho, os três santos e o que fazemos com essas datas
O mês tem três datas bem marcadas na devoção popular brasileira: Santo Antônio, no dia 13, São João Batista, no dia 24, e São Pedro, no dia 29. Em muitas regiões, as festas se estendem por todo o mês e chegam até julho.
Essas datas vêm do calendário católico e são celebradas com enorme carinho pelo povo brasileiro. Aqui na casa não disputamos isso com ninguém: respeitamos a devoção de quem é católico e reconhecemos que boa parte da nossa gente cresceu rezando para esses santos.
O que a Umbanda faz é o que sempre fez com as datas do calendário popular: olhar para elas com os olhos da nossa teologia, sem tirar nada de ninguém. Escrevi sobre esse encontro no texto de sincretismo.
As correspondências mudam de casa e de região
Aqui é onde eu preciso ser bem honesta com você, porque circula muita informação como se fosse regra fechada e não é.
Em muitas casas de Umbanda, São João Batista é associado a Xangô — e essa é a correspondência mais ouvida no Sudeste. Em outras casas, Santo Antônio é ligado a Ogum, por causa da imagem do santo soldado e da fama de abridor de caminhos. E há terreiros, principalmente no Norte e no Nordeste, que ligam São Pedro a Xangô, por conta das chaves e do poder de decidir.
Existe ainda quem associe São João a Ogum. Nenhuma dessas leituras é errada: elas nasceram em lugares diferentes, com histórias diferentes, e todas têm dignidade.
Costumo orientar assim: pergunte ao dirigente do seu terreiro qual correspondência aquela casa usa, e siga a orientação de lá. Reuni as datas que seguimos aqui no calendário dos orixás.
A fogueira: o fogo que limpa, aquece e reúne
A fogueira é o coração da festa junina, e ela diz muita coisa.
O fogo limpa. Em quase todas as tradições religiosas do mundo ele é agente de transformação: o que entra nele não volta igual. Na nossa leitura, o fogo queima o que já cumpriu seu tempo e abre espaço para o que ainda vai nascer.
O fogo aquece. Junho é frio em boa parte do Brasil, e a fogueira sempre foi o lugar onde a comunidade se junta. Ninguém faz fogueira sozinho e para si mesmo.
E o fogo reúne. Repare que todo mundo forma círculo em volta da fogueira, sem lugar marcado. Essa roda é parecida com a que formamos na gira, o trabalho espiritual da nossa casa. A Umbanda é uma religião de roda.
Xangô, Oroiná e o Trono da Justiça
Na Umbanda Sagrada, que é a linha que seguimos, os orixás são manifestações de Olorum, o Deus único, e se organizam em sete tronos formados por casais.
O fogo é o elemento do Trono da Justiça, onde estudamos Xangô e Oroiná, também chamada Egunitá em muitas casas. Xangô é o fogo da pedra, do juízo firme, da lei que pesa antes de decidir. Oroiná é o fogo vivo, o fogo que consome o que precisa ser consumido.
Por isso, quando a gente acende uma fogueira em junho, não está só fazendo festa. Está tocando num elemento que a nossa teologia leva muito a sério. Ao redor do fogo, costumo pedir aos filhos da casa que pensem no que querem deixar queimar: um ressentimento, uma teimosia, uma briga antiga. Isso é reforma íntima em forma de brincadeira.
Kaô Cabecile é a saudação de Xangô, e ela cabe muito bem numa noite de junho.
Comida, quadrilha e a alegria como parte da fé
Olhe o que se come na festa junina: milho, amendoim, canjica, pipoca, batata-doce, mandioca, bolo de fubá, quentão. É comida de terra, simples, farta e feita para dividir.
Partilha é fundamento. Na Umbanda, comida que se dá tem tanto valor quanto comida que se come. A mesa da festa junina é uma aula disso: ninguém enche o próprio prato e vai para um canto. Todo mundo come do mesmo tacho.
E tem a alegria. Preciso dizer isso com todas as letras, porque muita gente chega achando que religião de terreiro é coisa sisuda, de cara fechada: a Umbanda não é uma religião triste. A gente canta, bate palma, dança, ri e brinca. O axé, que é a força vital que circula entre nós, também se movimenta na alegria, e não só na seriedade.
Cuidado com o fogo, com o foguete e com os bichos
Agora a parte que eu não deixo de falar nenhum ano, porque junho é o mês em que mais acontecem acidentes com fogo no Brasil.
- Fogueira só em local aberto, longe de mato seco, de muro de madeira, de fiação e de botijão de gás.
- Nunca use álcool, gasolina ou qualquer líquido inflamável para acender ou reavivar o fogo.
- Tenha água ou areia por perto, do começo ao fim.
- Criança perto de fogueira só com adulto junto, sempre.
- Roupa de festa junina costuma ter tecido leve e saia rodada: mantenha distância do fogo.
- Não deixe a fogueira apagando sozinha. Apague de verdade antes de ir dormir.
- Balão é crime ambiental no Brasil. Não solte, não financie, não aplauda.
Sobre o fogo de artifício, eu tenho uma posição firme: prefira os fogos sem estampido. O barulho apavora cachorro, gato, cavalo, passarinho e também gente autista, idoso e bebê. Uma festa que só é bonita para quem está dentro dela não é uma festa completa. Respeito aos bichos é respeito à criação de Olorum, e isso não é detalhe.
Como vivemos junho aqui na casa
Junho aqui costuma ser mês de casa cheia. Quando a data cai perto de uma gira, a gente adapta: mantém o horário de sempre, mantém a roupa de sempre, e depois do encerramento vem a mesa com a comida que cada um trouxe.
Em datas festivas também fazemos amaci, que é a lavagem ritual da cabeça com ervas maceradas na água, sempre com orientação da casa e nunca por conta própria. E a curimba, o canto acompanhado dos atabaques, ganha um ânimo diferente nesse mês.
Se quiser conhecer esse clima de perto, as datas das giras abertas ficam na página de Giras. Aqui no templo, em Cotia, a assistência é aberta e ninguém precisa avisar antes nem chegar sabendo de nada. Venha com o coração tranquilo e traga sua fome de canjica.
Perguntas frequentes
Umbandista pode ir à festa junina da igreja?
Pode, com todo o respeito ao espaço de quem convida. A Umbanda não exige que você abandone as festas da sua cidade, da escola dos seus filhos ou da comunidade onde vive. Vá, coma, dance e se comporte como visitante educado.
A fogueira de São João tem algum uso ritual na Umbanda?
Em algumas casas sim, dentro do fundamento e da orientação do dirigente. Não é algo para improvisar em casa. Se você quiser trabalhar com fogo de forma ritual, converse primeiro com a sua casa e siga o que for orientado ali.
Qual orixá é de São João mesmo?
Depende da casa e da região. Xangô é a correspondência mais comum no Sudeste, mas há terreiros que ligam São João a Ogum e outros que veem Xangô em São Pedro. Pergunte ao dirigente do seu terreiro qual é o fundamento de lá.
Posso fazer uma fogueirinha em casa para pedir algo?
Se for apenas uma vela ou uma pequena chama, use bom senso e segurança: local firme, longe de cortina e de papel, fora do alcance de crianças e de animais, e nunca acesa sem ninguém por perto. Fogueira mesmo, só em espaço aberto e com adulto responsável o tempo todo.
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