7 de agosto de 2026 · 7 min de leitura
2 de fevereiro, Dia de Iemanjá: o sentido da data
2 de fevereiro, Dia de Iemanjá: o sentido da data, por que o mar recebe flores, como a casa celebra e como participar com respeito e com cuidado.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Todo começo de fevereiro as praias do Brasil amanhecem cheias de flores. Barco enfeitado, vela branca, gente de branco na areia desde madrugada. E, junto com as flores, chega a dúvida que ouço todo ano aqui no templo: por que 2 de fevereiro?
A pergunta é boa porque a resposta tem várias camadas. Tem calendário católico, tem história de pescador, tem a Bahia, tem a Baixada Santista e tem a virada do ano na praia, que confunde bastante gente.
Neste texto conto de onde vem a data, o que acontece em Salvador e no litoral paulista, como o sincretismo entra nessa história, quem é Iemanjá dentro do que estudamos aqui, por que o 31 de dezembro também é dela e o que o mar não pode receber de jeito nenhum. Se o que você procura é o passo a passo de como participar da festa, escrevi separadamente em festa de Iemanjá.
De onde vem o 2 de fevereiro
No calendário católico, 2 de fevereiro é a festa da Apresentação do Senhor, conhecida popularmente como Nossa Senhora das Candeias, por causa das velas que se acendem na celebração. Em várias regiões do Brasil, a mesma data é de Nossa Senhora dos Navegantes.
Como a devoção mariana desse dia está ligada à luz, à proteção de quem navega e à maternidade, ela se aproximou naturalmente de Iemanjá no sincretismo brasileiro. A nossa tabela de datas, reunida no calendário dos orixás, traz o 2 de fevereiro ligado a ela.
Mas a data não nasceu pronta num livro de teologia. Ela foi ficando assim no chão da praia, com festa de pescador, procissão e promessa.
As grandes festas: Salvador, Santos e Praia Grande
A mais famosa é a do Rio Vermelho, em Salvador. Conta-se que a tradição começou em 1923, depois de um ano de pesca muito ruim: os pescadores do bairro organizaram um presente para a mãe das águas, pedindo fartura e proteção no mar. Deu certo aos olhos deles, e a entrega virou festa anual.
Hoje, no dia 2, a Casa do Peso recebe desde a madrugada milhares de presentes em balaios: flores, cartas, perfumes, espelhos. À tarde, os barcos saem em cortejo e levam tudo para o alto-mar. É uma das maiores manifestações religiosas populares do país.
Em São Paulo, o 2 de fevereiro é grande em Santos e em Praia Grande, com concentração na areia, barcos enfeitados e pessoas de várias casas, de várias tradições, dividindo o mesmo pedaço de praia. Quem mora na região metropolitana costuma descer a serra na véspera.
Nossa Senhora dos Navegantes e o sincretismo que varia
Vale dizer com clareza: a correspondência entre Iemanjá e as invocações de Nossa Senhora não é uma verdade única. O sincretismo nasceu da necessidade histórica de cultuar escondido, e cada região guardou um arranjo próprio.
Nos nossos materiais, Iemanjá aparece ligada a Nossa Senhora dos Navegantes, da Luz, das Candeias e também da Glória. Há casas que festejam Iemanjá em 8 de dezembro, com Nossa Senhora da Conceição, e outras em 15 de agosto, com Nossa Senhora da Glória.
Se você frequenta um terreiro, siga o calendário dele. E se você é católico e reza a Nossa Senhora dos Navegantes sem nenhuma ligação com Umbanda, a sua devoção merece o mesmo respeito que pedimos para a nossa.
Quem é Iemanjá na nossa casa
Na Umbanda Sagrada, que é a vertente que seguimos, Iemanjá ocupa o polo irradiante do Trono da Geração, ao lado de Omolu.
Costumo explicar aos filhos da casa que ela é a mãe da vida: de tudo o que começa, do que é gerado, do que nasce. Senhora do mar e de todas as águas, ela acolhe sem exigir nada em troca e sem forçar ninguém a nada.
Nos nossos materiais, as cores dela são o azul-claro, o branco-cristalino e o prata. O dia da semana é sábado. A saudação é Odoyá. As ervas ligadas a ela estão em ervas de Iemanjá.
Por que o 31 de dezembro também é dela
Muita gente pergunta se a data certa é 2 de fevereiro ou 31 de dezembro. As duas coisas convivem, e elas não são a mesma coisa.
O 2 de fevereiro é a data festiva do calendário, herdada do sincretismo. O 31 de dezembro é a virada do ano: a noite em que milhões de brasileiros, religiosos ou não, entram na água, pulam onda e entregam flores pedindo um ano melhor. Virou costume nacional, muito além dos terreiros.
Aqui na casa, a nossa festa de Iemanjá acontece na praia, à noite, e a data é combinada com a corrente. Nenhuma das duas anula a outra. Iemanjá, dizem os antigos, não se importa com calendário: se importa com o que vai no coração de quem chega.
Como marcamos o dia aqui na casa
Na gira, que é o nosso trabalho espiritual em roda, o congá, que é o altar do terreiro, se veste de azul-claro e branco, com flores e velas. A curimba, o canto acompanhado dos atabaques, puxa pontos de água, mais lentos e embalados.
A corrente cumpre o preceito de três dias antes, com banhos e cuidado na alimentação. Em datas assim também costumamos fazer amaci coletivo, o banho sagrado de cabeça, sempre com preparo e orientação da casa.
Quem vem na assistência não precisa levar nada, e o passe e a consulta com as entidades não são cobrados. Se você mora por perto, será uma alegria receber você numa gira aberta aqui no templo, em Cotia.
Respeito ao mar: o que não vai na água
Esta parte eu falo firme, porque a festa mais bonita do ano não pode terminar em praia suja. Oferenda que vira lixo não honra orixá nenhum. Escrevi sobre o sentido do gesto em oferenda com respeito.
O que não vai ao mar, de jeito nenhum:
- Vidro. Garrafa, frasco de perfume, espelho com moldura. Quebra, vira caco na areia e machuca.
- Isopor e plástico. Bandeja, embalagem, sacola, celofane, fita. Tartaruga confunde com água-viva e morre.
- Purpurina, glitter e confete. Vira microplástico na hora.
- Vela solta na areia. Além do risco de queimadura em quem passa, o resto de parafina fica ali por anos.
- Imagem de gesso com tinta. Boa parte volta quebrada com a maré.
O que funciona: flores naturais sem embalagem, sem arame e sem fita; um barquinho de material biodegradável; perfume borrifado em vez de frasco entregue; e a sua oração, que é a parte que o mar realmente recebe. Vela, só em local seguro, longe de mato seco e de gente, nunca acesa sem ninguém por perto.
E, se der, fique mais dez minutos depois da festa e recolha o que os outros deixaram. Já vi isso emocionar mais gente do que qualquer oferenda grande.
Perguntas frequentes
Afinal, qual é a data certa de Iemanjá?
Depende da casa e da região. As mais comuns são 2 de fevereiro, 8 de dezembro e 15 de agosto, além do 31 de dezembro na virada. Nos nossos materiais, o 2 de fevereiro é a data festiva. Se você frequenta um terreiro, siga o calendário de lá.
Preciso ser umbandista para ir à praia no dia 2?
Não. As festas de praia são públicas e recebem gente de todas as religiões e de nenhuma. Vá com respeito, não fotografe médium incorporado sem autorização e não atravesse oferenda alheia.
Posso entregar presente para Iemanjá em qualquer praia?
Pode, desde que seja um lugar seguro e limpo. Prefira entrar pouco na água, nunca sozinho, e observe a maré e as bandeiras dos salva-vidas. Praia não é lugar de arriscar a vida.
Iemanjá e Omolu no mesmo trono? Não é estranho?
Só parece estranho de fora. Na Umbanda Sagrada, o Trono da Geração reúne quem gera a vida e quem guarda o ciclo dela até o fim. São polos de uma mesma coisa. Outras tradições organizam os orixás de outro modo, e está tudo bem.
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