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26 de julho de 2026 · 6 min de leitura

Umbanda e espiritismo: diferenças e o que têm em comum

Umbanda e espiritismo: diferenças de culto, de origem e de prática, o que as duas religiões têm em comum e por que os termos se misturam tanto.

Mãe Lu (Lucila Celete)

Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)

"Mãe Lu, Umbanda é uma espécie de espiritismo?" Essa pergunta aparece muito, e ela faz todo sentido. Os dois caminhos falam de espírito, de reencarnação e de caridade, usam palavras parecidas e, no Brasil, cresceram lado a lado.

Mas são duas religiões distintas, com ritos próprios e fundamentos próprios. Nenhuma está acima da outra, e nenhuma é versão simplificada da outra. Quem vai a um centro espírita kardecista encontra um jeito de trabalhar; quem vai a um terreiro de Umbanda encontra outro. Ambos são sérios.

Neste texto vou colocar lado a lado o que as duas têm em comum, o que cada uma tem de próprio e por que os termos se misturam tanto na boca do povo. Com respeito aos dois lados, porque respeito é fundamento aqui.

O que as duas têm em comum

Comecemos pelo que aproxima, que é bastante coisa:

  • A crença em Deus único. Para nós é Olorum, o criador de tudo, e os orixás são manifestações dele, não deuses separados.
  • A imortalidade do espírito. A morte do corpo não encerra a pessoa.
  • A reencarnação como oportunidade de aprendizado e de reparação.
  • A mediunidade como faculdade natural, que pede estudo e disciplina.
  • A caridade como centro da prática. Sem ela, o resto vira enfeite.
  • A reforma íntima, que é o trabalho de se tornar uma pessoa melhor, dia após dia.

Não é pouco. Quando alguém diz que as duas religiões conversam, está certo. Elas conversam e sempre conversaram.

De onde vem a mistura de termos

A Umbanda nasceu publicamente no Brasil em 15 de novembro de 1908, com o jovem Zélio Fernandino de Moraes, em Niterói. E nasceu, justamente, dentro de uma sessão espírita.

Zélio manifestou uma entidade que se apresentou como Caboclo das Sete Encruzilhadas e anunciou um culto novo, que acolheria caboclos e pretos-velhos, espíritos de brasileiros que naquele ambiente eram vistos como atrasados. Escrevi mais sobre isso em 15 de novembro, Dia da Umbanda.

Por isso a raiz kardecista está na formação da Umbanda desde o primeiro dia. Muito do nosso vocabulário veio de lá: desobsessão, doutrinação, reforma íntima, plano espiritual. Isso explica a confusão e, mais do que isso, explica o parentesco. A história da Umbanda mostra como esses fios se cruzaram com a herança africana e indígena que já estava aqui.

O que é próprio do espiritismo kardecista

Aqui eu falo com cuidado e sem me arvorar em porta-voz de ninguém, porque quem explica o espiritismo melhor do que eu são os próprios espíritas.

O espiritismo foi codificado na França por Allan Kardec, a partir de 1857, e se organiza em torno de uma doutrina escrita. Os centros costumam ter sessões de estudo, palestra, evangelho no lar, passe e trabalhos de desobsessão.

O ambiente é mais sóbrio: não há atabaque, não há canto ritual, não há ervas nem defumação como parte do culto, e não há orixás. A comunicação com os espíritos costuma acontecer pela psicofonia e pela psicografia, sem a caracterização do guia que existe no terreiro.

É um caminho de grande seriedade, que fez e faz muito bem a muita gente. Tenho amigos espíritas que vivem a caridade de um jeito que me ensina.

O que é próprio da Umbanda

Do nosso lado, o que nos define começa pelo culto aos orixás. Na nossa casa estudamos catorze orixás organizados em sete tronos, em casais, como manifestações de Olorum: fé, amor, conhecimento, justiça, lei, evolução e geração.

Depois vem a incorporação dos guias com nome, jeito e identidade próprios. Caboclos, pretos-velhos, erês — que são as crianças —, boiadeiros, baianos, marinheiros, ciganos, exus e pombagiras. Cada linha tem um modo de falar, de se portar e de trabalhar. Veja mais em o que é Umbanda.

E vem o rito, que é o mais visível: a curimba, que é o canto com os atabaques; os pontos cantados, que chamam e firmam o trabalho; a defumação; o banho de ervas; a pemba; o congá, que é o altar do terreiro; as roupas rituais, branco na direita e preto na esquerda, aqui na nossa casa.

Também trabalhamos com a esquerda, que chamo de esquerda de Deus: Exu, Pombagira e Exu Mirim, guardiões e agentes da Lei. Isso não existe no espiritismo, e é uma das diferenças mais marcantes entre os dois caminhos.

Há ainda a diferença de formação histórica. O espiritismo chegou ao Brasil vindo da Europa, com uma doutrina já escrita e organizada. A Umbanda se formou aqui, no chão brasileiro, juntando a herança dos povos africanos, a espiritualidade indígena, a devoção católica popular e a leitura kardecista que circulava nas cidades do começo do século XX. Uma religião veio de fora e se enraizou; a outra brotou daqui mesmo, da mistura que só este país produziu.

E a mediunidade, funciona igual?

O fundamento é o mesmo: uma faculdade humana que permite a troca entre os planos. A forma de trabalhar é que muda.

No terreiro, o médium recebe o guia com a caracterização daquela linha, no meio do canto, do atabaque e do movimento da gira, que é a sessão de trabalho espiritual do terreiro. Há gira de desenvolvimento, há preceito antes do trabalho — o cuidado ritual de três dias que antecede a gira — e há firmeza, que é o gesto simples de sustentar a própria ligação espiritual em casa, com vela e oração. Sobre o fundamento, veja a página de mediunidade.

No centro espírita, o trabalho é feito sentado, em silêncio, com outra disciplina. Nenhum dos dois é mais evoluído. São gramáticas diferentes para uma mesma faculdade.

Vale dizer que a Umbanda também tem parentesco com o candomblé, de outro jeito e por outros caminhos. Já tratei disso em Umbanda e candomblé: diferenças.

Dá para frequentar os dois?

Dá, e conheço gente que faz isso com equilíbrio a vida inteira. Mas quero ser honesta sobre duas coisas.

A primeira é que cada casa tem suas orientações. Algumas pedem que a pessoa firme vínculo em um lugar só, principalmente quando já está em desenvolvimento mediúnico, para não misturar trabalhos e não se dispersar. Pergunte, com tranquilidade, à casa que você frequenta.

A segunda é que frequentar não é a mesma coisa que estar em desenvolvimento. Assistir a uma palestra num centro e ir a uma gira no domingo seguinte não é conflito nenhum. Já desenvolver mediunidade em dois lugares ao mesmo tempo costuma cansar a pessoa e confundir o aprendizado.

Aqui no templo, em Cotia, quem chega de um centro espírita é recebido com a mesma alegria de sempre, e não precisa renunciar a nada para se sentar na assistência. Se quiser aprofundar o estudo teológico, o curso de Teologia de Umbanda foi pensado para isso.

Perguntas frequentes

Umbanda é espiritismo de terreiro?

Não. É uma religião brasileira própria, com culto aos orixás, rito, ervas, curimba e linhas de trabalho. A influência kardecista está na origem, mas a Umbanda tem fundamento, teologia e prática próprios.

Por que a Umbanda usa palavras do espiritismo?

Porque nasceu em ambiente espírita, em 1908, e trouxe esse vocabulário junto. Termos como doutrinação, desobsessão e reforma íntima chegaram por esse caminho e ficaram.

O espiritismo aceita os orixás?

O espiritismo kardecista não trabalha com orixás, e isso não é crítica a ninguém. São fundamentos diferentes, cada um coerente dentro da própria casa.

Posso ir a um terreiro sendo espírita?

Pode. Ninguém aqui vai pedir que você mude de religião, e ninguém é convertido na porta. Basta chegar com respeito, observar o rito e perguntar quando tiver dúvida.

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