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28 de julho de 2026 · 7 min de leitura

O que é macumba de verdade: origem e preconceito

O que é macumba de verdade: a origem da palavra, o que o termo significava, como ele virou ofensa e por que a casa explica isso com calma e firmeza.

Mãe Lu (Lucila Celete)

Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)

Poucas palavras da língua portuguesa carregam tanto mal-entendido quanto essa. Muita gente chega aqui perguntando baixinho se a Umbanda "é macumba", como quem pede licença para dizer um palavrão.

Então vamos com calma. Macumba, na origem, é o nome de um instrumento musical. Depois virou o nome popular dos cultos afro-brasileiros. E só muito depois foi transformada em xingamento — e isso não aconteceu por acaso.

Neste texto vou contar de onde vem a palavra, como ela virou ofensa, o que as pessoas realmente querem dizer quando falam em macumba na encruzilhada e como responder quando alguém usa o termo para te agredir. Sem revolta e sem vergonha, que é como eu gosto de tratar essas coisas.

De onde vem a palavra

Macumba é palavra de origem banto, trazida pelos povos africanos que chegaram ao Brasil escravizados. Na acepção mais antiga que se documenta, era o nome de um instrumento de percussão, tocado por fricção, parecido com o que hoje chamaríamos de reco-reco.

Instrumento, portanto. Coisa de música, de festa e de culto — como o atabaque, como o agogô.

Com o tempo, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o nome passou do instrumento para o ambiente em que ele era tocado. Os cultos afro-brasileiros urbanos do século XIX e do início do século XX passaram a ser chamados, popularmente, de macumba. Era descrição, não ofensa: era o nome que o povo dava para aquilo que via acontecer.

Dessas casas, desses tambores e dessa gente vem boa parte da nossa raiz. A história da Umbanda conta como esses fios se juntaram à herança indígena e à influência espírita até formar o que praticamos hoje.

Como o nome virou xingamento

Aqui a conversa fica séria, e eu não vou adoçar.

Por muito tempo, neste país, praticar religião de matriz africana foi tratado como caso de polícia. Terreiro apanhou, congá foi quebrado — congá é o altar do terreiro —, atabaque foi apreendido e gente de fé foi presa. Os jornais da época noticiavam isso como se fosse combate ao crime.

Nesse processo, a palavra macumba foi carregada de sentido negativo de propósito. Deixou de nomear um culto e passou a nomear uma suspeita: feitiço, embuste, coisa de gente ignorante. E "macumbeiro" virou xingamento, usado até hoje para humilhar quem é de terreiro.

Preciso dizer o nome disso: é racismo religioso. Não é falta de informação apenas, não é piada inocente. É a continuação de uma perseguição que começou com a polícia e continuou com a boca das pessoas.

Quem é chamado assim não está sendo alvo de uma implicância boba. Está sendo alvo de preconceito, e preconceito religioso é crime no Brasil. Escrevi sobre o que fazer nesses casos em preconceito religioso: o que fazer.

"Macumba na encruzilhada": o que aquilo é de verdade

Você já deve ter visto, numa esquina ou num pé de árvore, um prato com farofa, uma vela, uma garrafa, algumas flores. E já deve ter ouvido alguém dizer, meio nervoso, que "fizeram macumba ali".

Quase sempre é uma oferenda. Alguém foi até ali entregar um agradecimento, um pedido, uma homenagem a um guia ou a um orixá. Oferenda não é praga, não é armadilha e não é feitiço deixado para pegar quem passa.

Ninguém "pega" nada ao passar perto. Costumo dizer aos filhos que o maior risco daquela oferenda é ecológico: plástico, vidro e vela deixados na natureza fazem mal ao lugar e à imagem da religião. Por isso orientamos entrega simples, sem plástico, sem vidro e sem sujeira. Escrevi sobre isso em oferenda na Umbanda: o que é e como fazer com respeito.

Se você vê uma oferenda na rua, o melhor que pode fazer é simplesmente seguir seu caminho. Não chute, não fotografe para zombar, não poste. É a fé de alguém ali.

Por que a casa não usa essa palavra para vender medo

Existe uma indústria pequena e triste que vive de assustar gente. Ela anuncia desgraça para depois oferecer a solução, e usa justamente esse vocabulário para isso.

Aqui não trabalhamos assim, e essa é uma linha que não atravessamos. Ninguém nesta casa vai olhar para você e anunciar que alguém mandou fazer alguma coisa contra a sua vida. Ninguém vai dizer que seu problema tem uma causa oculta que só nós podemos resolver.

E não fazemos trabalho contra pessoa nenhuma. A Umbanda que praticamos não interfere na vontade de ninguém: não prende, não separa, não domina. Quem procura isso está batendo na porta errada, e eu digo isso com a maior tranquilidade do mundo.

Quando alguém chega assustado com uma história dessas, a orientação é sempre a mesma: respire, conte o que está acontecendo de verdade na sua vida e vamos olhar junto. Na maioria esmagadora das vezes, o que existe é cansaço, conflito e problema concreto esperando decisão.

Tem gente usando a palavra com orgulho

Nos últimos anos aconteceu uma coisa bonita: muita gente de terreiro resolveu reapropriar a palavra.

Artistas, pesquisadores, escritores e praticantes passaram a se dizer macumbeiros de peito aberto, como quem devolve o xingamento transformado em identidade. É o mesmo movimento que outros grupos já fizeram com palavras que um dia foram usadas para ferir.

Na nossa casa, eu prefiro dizer Umbanda, porque é o nome da religião que praticamos e porque há diferença entre as tradições que o termo popular embaralha. Mas respeito profundamente quem usa a palavra com orgulho, e entendo o gesto.

Outras casas trabalham de outro jeito e escolhem outras palavras, e está tudo bem. O que não está bem é usar o termo para humilhar alguém.

Como responder quando usam o termo para te ofender

Já me perguntaram muitas vezes o que dizer nessas horas. Deixo aqui o que costumo orientar:

  • Não grite de volta. Quem xinga espera revide, e o revide costuma alimentar a cena.
  • Corrija com informação curta: "sou umbandista, e a minha religião é protegida por lei, como a sua".
  • Não entregue o que não é da conta de ninguém. Você não deve explicação sobre a sua fé a quem só quer material para zombar.
  • Se acontecer no trabalho, na escola ou em condomínio, registre por escrito e leve a quem tem responsabilidade sobre o ambiente.
  • Se houver ameaça, agressão ou dano, isso é caso de boletim de ocorrência. Intolerância religiosa é crime no Brasil.
  • Procure a sua casa. Ninguém precisa atravessar isso sozinho.

Se você chegou até aqui carregando esse peso, saiba que muita gente já passou pelo mesmo. Aqui no templo, em Cotia, a porta das giras abertas — gira é a sessão de trabalho espiritual do terreiro — está aberta, e ninguém é interrogado sobre nada ao entrar. Se quiser entender melhor a religião antes de qualquer coisa, comece por o que é Umbanda e pela página de sincretismo, que ajuda a entender por que santo e orixá se misturaram na história do Brasil.

Perguntas frequentes

Umbanda é macumba?

Depende de quem fala. Se a pessoa usa a palavra no sentido popular antigo, de culto afro-brasileiro, ela está se referindo a uma família de religiões que inclui a nossa. Se usa como ofensa, está praticando preconceito, e vale dizer isso com calma.

Macumba é o mesmo que feitiço para o mal?

Não. Esse sentido foi colado na palavra ao longo de um processo de perseguição às religiões de matriz africana. A palavra nasceu nomeando um instrumento musical e depois nomeou casas de culto.

Achei uma oferenda na rua. O que faço?

Siga o seu caminho e não mexa. Não existe risco em passar por perto. Se o local ficou sujo, o problema é ambiental, e a orientação séria é que oferendas sejam feitas sem plástico, sem vidro e sem deixar lixo.

Posso me chamar de macumbeiro?

Pode. A palavra virou xingamento na boca de quem tem preconceito, e reapropriá-la é uma escolha legítima e cada vez mais comum entre quem é de terreiro. Só não vale usar o termo para rotular ou diminuir outra pessoa, que é o uso que sempre feriu.

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