10 de agosto de 2026 · 6 min de leitura
15 de novembro, Dia da Umbanda: por que essa data
15 de novembro, Dia da Umbanda: o que aconteceu em 1908, por que a data foi escolhida e como as casas celebram o aniversário público da religião.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Todo ano, quando novembro chega, aparece a mesma pergunta na porta do templo: "Mãe Lu, por que o Dia da Umbanda é no feriado da República? Tem alguma coisa a ver uma coisa com a outra?"
Não tem. É coincidência de calendário, e eu vou explicar direitinho.
Neste texto conto o que aconteceu em 15 de novembro de 1908, por que essa data foi escolhida como aniversário público da Umbanda, o que dizem as outras leituras sobre a origem da nossa religião, como as casas celebram hoje e o que essa data pede de quem se diz umbandista.
O que aconteceu em 15 de novembro de 1908
A história mais contada entre nós é a seguinte. Um rapaz de dezessete anos chamado Zélio Fernandino de Moraes, morador de Neves, distrito de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, vinha passando por uma situação que ninguém sabia explicar.
Levado a uma reunião espírita em Niterói, ele se manifestou. Ali teria se apresentado uma entidade que se identificou como Caboclo das Sete Encruzilhadas, anunciando uma religião que acolheria os espíritos de caboclos e de pretos-velhos, rejeitados em outras mesas por serem considerados atrasados.
No dia seguinte, ainda segundo essa narrativa, fundou-se na casa da família a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, primeira casa a se chamar publicamente de Umbanda. Dela vieram outras tendas, e dessas, muitas das casas que existem hoje.
Essa é a história que aprendi e que conto aos filhos desta casa. Ela é o marco fundador que a maior parte do movimento umbandista adota.
A Umbanda é bem mais velha do que 1908
Agora, uma honestidade que eu faço questão de ter.
Aquele dia marca o nascimento público da Umbanda com esse nome, organizada, com estatuto, com porta aberta. Não marca o nascimento das práticas. Muito do que fazemos já acontecia antes, em terreiros, em quintais, em calundus, em zonas rurais e em periferias, longe de qualquer registro escrito.
As raízes são anteriores e são várias: as religiões africanas trazidas pelo povo escravizado, sobretudo de matriz banto e iorubá; a espiritualidade dos povos indígenas destas terras; a devoção católica popular; o espiritismo que chegava da Europa; e a medicina de raiz do interior do Brasil.
Há pesquisadores e há lideranças de terreiro que leem a origem de outro jeito. Alguns entendem 1908 como um momento de organização e de branqueamento de práticas que já existiam. Outros discutem detalhes da data e do local. Essas leituras merecem respeito e estudo, não briga. Falo mais sobre esses caminhos em História da Umbanda.
Uma religião viva comporta mais de uma versão da própria história. Isso não enfraquece a fé de ninguém.
Por que a confusão com a Proclamação da República
A Proclamação da República aconteceu em 15 de novembro de 1889, dezenove anos antes. É a mesma data no calendário, e é só isso.
A coincidência confunde muita gente, e por um motivo prático: como o dia já é feriado nacional, fica fácil reunir a comunidade. Terreiro é lugar de gente que trabalha, e uma data em que quase todo mundo está livre acabou ajudando a fixar a celebração.
Então, quando alguém disser que a Umbanda escolheu o feriado da República de propósito, você já sabe responder com calma: foi coincidência, e a coincidência deu certo.
O que a data significa hoje
Em várias cidades brasileiras, o 15 de novembro é reconhecido oficialmente como Dia da Umbanda, e alguns municípios e estados criaram datas próprias por lei. Isso importa mais do que parece: reconhecimento oficial é proteção. Uma religião nomeada em lei tem mais defesa contra quem a ataca.
No movimento umbandista, a data costuma reunir:
- Giras especiais, sendo gira o trabalho espiritual da casa, com a corrente inteira.
- Encontros, congressos e palestras entre casas diferentes.
- Amacis coletivos, que são lavagens rituais da cabeça com ervas, sempre com orientação do dirigente.
- Homenagens aos fundadores e aos mais velhos de cada terreiro.
- Atos públicos pela liberdade religiosa.
Cada casa faz do seu jeito, e a variedade é bonita. Não existe um roteiro único para o 15 de novembro, assim como não existe uma única Umbanda. Sobre essa diversidade, escrevi em vertentes da Umbanda.
O lugar dos caboclos nessa história
Não é detalhe que a Umbanda tenha se apresentado ao mundo pela boca de um caboclo.
Os caboclos são os espíritos que trabalham na linha ligada à força da mata, ao conhecimento das ervas e à firmeza no falar. Foram justamente eles, junto dos pretos-velhos, que estavam sendo recusados em outros espaços por serem vistos como espíritos pouco evoluídos.
A Umbanda nasceu dizendo o contrário: quem carrega sabedoria de mata, de senzala e de roça tem lugar, tem voz e tem trabalho a fazer. Essa foi uma afirmação social, não só religiosa, e continua sendo.
Se você quiser entender como essas linhas se organizam, comece pelas sete linhas de Umbanda.
O que a data pede de quem é umbandista
Aqui eu costumo ser direta com os filhos da casa. Aniversário de religião não é só bolo e foto. É hora de olhar para dentro.
Estudo. Umbandista que não estuda repete o que ouviu no corredor. Leia, pergunte, procure fonte séria, converse com os mais velhos da sua casa. Quem quiser começar pela teologia, deixei um caminho no e-book de teologia para umbandistas.
Orgulho sem arrogância. Ter orgulho da sua fé não significa diminuir a fé do outro. Nunca precisei falar mal de nenhuma religião para defender a minha, e não vou começar agora.
Firmeza contra o preconceito. A Umbanda ainda é atacada neste país, e isso é crime. Conhecer a própria história é a primeira defesa, porque quem sabe o que fala não se abala com boato.
Coerência. A melhor propaganda da Umbanda é um umbandista de palavra. Não adianta cantar bonito na gira e tratar mal a vizinha na segunda-feira.
Como vivemos essa data aqui
Aqui no templo, em Cotia, novembro é mês de casa cheia e de memória. A gente lembra de quem veio antes, agradece os fundadores e ouve os mais velhos contarem como era.
Se você nunca entrou num terreiro e tem curiosidade, essa costuma ser uma época boa para conhecer, porque as casas ficam mais abertas e mais explicativas. E se quiser entender o básico antes de vir, comecei tudo em O que é Umbanda.
Saravá a todos os que abriram caminho para que esta religião pudesse existir à luz do dia.
Perguntas frequentes
O Dia da Umbanda é feriado?
Não é feriado nacional por conta da Umbanda. O 15 de novembro já é feriado por causa da Proclamação da República. Alguns municípios e estados reconhecem a data como Dia da Umbanda em lei própria, o que varia de lugar para lugar.
Zélio de Moraes é o fundador da Umbanda?
Ele é reconhecido como o médium que trouxe a Umbanda a público com esse nome, em 1908. As práticas que formam a religião são anteriores e vêm de matrizes africanas, indígenas e populares. Fundador do marco público, sim. Inventor da religião inteira, não.
Existe alguma comemoração obrigatória nessa data?
Não. Cada casa celebra do seu jeito, ou simplesmente mantém a gira normal. Não há regra única, e nenhuma casa é menos umbandista por celebrar de forma discreta.
Posso participar da gira de 15 de novembro sem ser umbandista?
Pode. Nas giras abertas, a assistência recebe quem chega, sem exigência de fé, de conversão ou de qualquer preparo. Basta respeito e vontade de conhecer.
Para aprofundar
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