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12 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Pretos-velhos: quem são e como trabalham na Umbanda

Pretos-velhos são guias de sabedoria e paciência na Umbanda. Conheça sua história, como atendem, o 13 de maio e como conversar com vovôs e vovós na gira.

Mãe Lu (Lucila Celete)

Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)

Tem gente que chega ao templo pela primeira vez numa gira de pretos-velhos e sai dizendo: "parecia que eu estava conversando com a minha avó". O banquinho baixo, o cachimbo, a voz mansa, a paciência de quem tem todo o tempo do mundo para escutar.

Os pretos-velhos estão entre os guias mais queridos da Umbanda. Costumo explicar aos filhos que eles ensinam uma das lições mais difíceis da vida: atravessar a dor sem deixar que ela vire ódio.

Neste texto vou contar quem são os pretos-velhos, como trabalham na gira, quais orixás sustentam essa linha, o sentido do 13 de maio e como conversar com eles. Do jeito que vivemos aqui no templo, na Umbanda Sagrada.

Quem são os pretos-velhos

Os pretos-velhos são espíritos que se apresentam como anciãos africanos e afro-brasileiros. Muitos viveram a escravidão no Brasil. Carregam a memória de um sofrimento imenso e a transformaram em sabedoria, fé e caridade.

Eles costumam se apresentar como vovô, vovó, pai ou mãe, seguidos de um nome e, muitas vezes, de uma origem: Pai Joaquim de Angola, Vovó Maria Conga, Pai Francisco, Vovó Cambinda, Pai Benedito. O nome indica a falange em que trabalham.

A presença deles na Umbanda é antiga. Já nas primeiras giras ligadas a Zélio de Moraes, em 1908, um preto-velho chamado Pai Antônio se manifestou ao lado do Caboclo das Sete Encruzilhadas. E a vertente que seguimos, a Umbanda Sagrada, tem entre suas referências o Colégio Pai Benedito de Aruanda, que leva o nome de um preto-velho. Conheça mais em linha dos pretos-velhos.

Humildade não é submissão

A postura curvada, o jeito simples de falar e a humildade dos pretos-velhos às vezes são mal interpretados. Há quem veja ali uma imagem de submissão. Não é isso.

A humildade dos pretos-velhos é a de quem passou pelo pior e escolheu não ser dominado pelo rancor. É força, não fraqueza. O perdão que eles ensinam não apaga a injustiça. Ele liberta quem perdoa.

Honrar os pretos-velhos também é honrar a história do povo negro no Brasil, uma história de resistência que continua. Na Umbanda, eles não são lembrados como vítimas, mas como mestres.

Se quiser levar esse ensinamento para casa, comece pelo simples. Uma prece de agradecimento aos mais velhos da sua família, os que estão aqui e os que já partiram. Uma vela branca acesa em local seguro, longe de cortinas e fora do alcance de crianças e animais, e um copo de água ao lado. Não é preciso mais do que isso para lembrar deles com respeito.

Como um preto-velho trabalha na gira

Quando um preto-velho chega, o médium costuma se curvar, e a entidade pede seu banquinho. Muitos trabalham com cachimbo, café, um terço e ramos de ervas como a arruda e a guiné.

O fumo, aqui, não é vício. É instrumento de limpeza: a fumaça ajuda a dissolver o que está pesado em volta de quem é atendido. O ramo de ervas é usado no benzimento, uma reza feita com as folhas passando pelo corpo da pessoa.

Os pretos-velhos também riscam pontos com pemba, um giz sagrado. O ponto riscado identifica a falange e ativa a energia do trabalho.

Na consulta, eles gostam de conversar. Perguntam da família, do trabalho, da saúde. Aconselham com histórias e comparações simples, que ficam na cabeça por dias. Não têm pressa. E raramente dão uma resposta pronta: preferem que a pessoa descubra o caminho com as próprias pernas.

Os orixás que sustentam essa linha

Na nossa teologia, os pretos-velhos aparecem entre as falanges sustentadas por Obaluaiê, Nanã e Omolu, além de trabalharem também sob Oxalá e Logunan.

Faz sentido. Obaluaiê e Nanã formam o Trono da Evolução, ligado à passagem, à maturidade e à paciência. É exatamente o que os pretos-velhos ensinam: cada coisa tem seu tempo, e a evolução acontece passo a passo.

Em outras vertentes, você vai ouvir falar em "linha das almas" ou "linha de Yorimá" para esse mesmo grupo de guias. Os nomes mudam de casa para casa, e está tudo bem.

O 13 de maio: festa e memória

O dia dos pretos-velhos é celebrado em 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, em 1888. Aqui no templo, a data faz parte do nosso calendário de celebrações.

Mas é também dia de reflexão. A abolição, do jeito que aconteceu, deixou milhares de pessoas sem terra, sem trabalho e sem amparo. Por isso, celebrar os pretos-velhos é celebrar a sabedoria que resistiu, e não fingir que a liberdade chegou completa.

Como conversar com um preto-velho

Algumas orientações ajudam muito quem vai a uma consulta pela primeira vez:

  • Chegue com calma. O cambone vai indicar quando é a sua vez. Muitas pessoas se agacham ou se ajoelham diante do banquinho para conversar de perto.
  • Conte o que precisa. A entidade não está ali para adivinhar. Costumo lembrar que entidade não lê mente: quanto mais sincero você for, melhor ela pode ajudar.
  • Escute até o fim. O conselho às vezes vem em forma de história. Guarde.
  • Receba o passe e o benzimento com o coração aberto.
  • Agradeça. A saudação aos pretos-velhos é "Adorei as almas".

Venha conhecer uma gira de pretos-velhos aqui no templo, em Cotia. As datas estão em Giras. E se você se interessa pelas ervas que eles usam, o e-book Ervas Sagradas traz mais de cem ervas com seus usos espirituais.

Perguntas frequentes

Todo preto-velho foi escravizado?

Muitos se apresentam assim, mas não todos. Alguns foram rezadores, benzedores ou líderes de suas comunidades, e nem todos viveram no Brasil. O que os une é a forma de trabalhar: humildade, paciência e sabedoria.

Por que os pretos-velhos fumam cachimbo?

Para limpar. O fumo, usado dentro do ritual, ajuda a dissolver energias pesadas em volta de quem é atendido. Não é vício, e o médium não traga a fumaça como um fumante comum.

O que significa "Adorei as almas"?

É a saudação tradicional aos pretos-velhos na Umbanda, uma forma de reverenciar as almas benditas que voltam para trabalhar na caridade.

Preto-velho ajuda em problema de saúde?

O passe e o benzimento trazem conforto e equilíbrio espiritual, e muita gente sai da consulta mais tranquila. Mas nada disso substitui acompanhamento médico. Os próprios pretos-velhos costumam ser os primeiros a mandar a pessoa ao médico.

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