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3 de agosto de 2026 · 7 min de leitura

13 de maio, Dia dos Pretos-Velhos: o que se celebra

13 de maio, Dia dos Pretos-Velhos: o que a data lembra, sua ligação com a Abolição, como a casa celebra e o que os pretos-velhos nos ensinam.

Mãe Lu (Lucila Celete)

Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)

Todo mês de maio chega a mesma pergunta aqui no templo: por que o Dia dos Pretos-Velhos cai em 13 de maio? Muita gente já ouviu dizer que tem a ver com a Abolição, mas não sabe explicar a ligação. Outros só viram o aviso da gira e vieram sem saber o que ia encontrar.

Costumo explicar aos filhos da casa que essa é a data mais delicada do nosso calendário. Não é só festa. É memória e é agradecimento, ditos em voz baixa, do jeito que os vovôs e as vovós gostam.

Neste texto conto o que aconteceu em 1888, por que a Umbanda escolheu justamente esse dia, o que os pretos-velhos nos ensinam, como celebramos na casa e o que você pode fazer no dia 13 sem precisar sair de casa.

O que aconteceu em 13 de maio de 1888

Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que declarou extinta a escravidão no Brasil. Foram poucas linhas num papel. O Brasil foi o último país das Américas a abolir legalmente a escravidão, depois de quase quatro séculos.

A lei encerrou a propriedade de uma pessoa sobre outra. Mas não veio com terra, salário, escola, moradia nem reparação nenhuma. Quem saiu da senzala saiu sem nada e sem para onde ir.

Por isso muita gente hoje prefere marcar o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, que lembra Zumbi dos Palmares e quem não esperou assinatura de ninguém. As duas datas convivem e dizem coisas diferentes. Na Umbanda, o 13 de maio ficou sendo o dia de quem atravessou aquilo tudo.

Por que a Umbanda escolheu essa data

A Umbanda nasceu no Brasil, no começo do século 20, e trouxe para o centro do altar exatamente quem a sociedade tinha jogado para a margem. Conto um pouco dessa origem na página sobre a história da Umbanda.

Quando a religião se organizou, a data da Abolição era a única do calendário nacional que falava diretamente da população negra escravizada. Foi natural que ela virasse o dia de honrar os espíritos que viveram aquele tempo e voltaram para trabalhar.

Não é comemoração da assinatura. É homenagem a quem sobreviveu a ela. A diferença parece pequena no papel, mas muda tudo na hora de rezar. Na nossa tabela de datas, que você encontra no calendário dos orixás, o 13 de maio aparece ligado à linha dos pretos-velhos, e não a um orixá.

Quem são os pretos-velhos

Os pretos-velhos são espíritos de anciãos e anciãs que viveram a escravidão no Brasil e retornam para trabalhar na caridade. Vovô, vovó, pai, mãe, tio, tia: é assim que eles se apresentam na linha dos pretos-velhos.

Eles chegam curvados, falam devagar, sentam num banquinho baixo e não têm pressa. Gostam de café, de fumo no cachimbo, de vela e de gente que fala a verdade. Não brigam, não ameaçam e não se impressionam com o tamanho do seu problema.

A humildade deles não é submissão. É a serenidade de quem já viu o pior que um ser humano pode fazer com outro e mesmo assim escolheu voltar para ajudar. Escrevi com mais calma sobre isso em pretos-velhos: quem são.

O que um preto-velho ensina

Se eu tivesse de resumir o que aprendi ouvindo vovôs e vovós em anos de gira, que é o nosso trabalho espiritual em roda, seria mais ou menos isto:

  • Paciência. Quase nada se resolve na velocidade que a gente quer.
  • Palavra medida. Falar menos e escutar mais resolve mais do que discutir.
  • Perdão como alívio de quem perdoa, não como favor a quem machucou.
  • Trabalho. Eles não prometem atalho. Orientam o passo seguinte e mandam você dar esse passo.
  • Raiz. Saber de onde se veio é parte de saber para onde se vai.

Nenhum preto-velho promete resultado nem marca data para a sua vida melhorar. Quando alguém pede algo assim, a resposta costuma vir em forma de conselho simples e de uma tarefa pequena para a semana.

Como celebramos o dia aqui na casa

A gira de pretos-velhos do mês de maio é das mais cheias do ano. A casa se prepara com antecedência, e a corrente cumpre o preceito de três dias antes, com banhos e cuidados de alimentação.

No dia, o congá, que é o altar do terreiro, recebe flores brancas e amarelas, velas e imagens dos vovôs. Tem café passado na hora, fumo, banquinhos baixos para as entidades, e a curimba, que é o canto acompanhado dos atabaques, puxa pontos mais lentos e graves do que de costume.

Em datas assim também costumamos fazer amaci coletivo, o banho sagrado de cabeça preparado com ervas da linha. Ele é feito com a corrente e com orientação, e não é coisa para improvisar em casa.

O visitante não precisa levar nada, e o passe e a consulta com as entidades não são cobrados. Basta chegar no horário e trazer respeito. A agenda das giras abertas fica em Giras. Se você mora perto, será uma alegria receber você aqui no templo, em Cotia, num 13 de maio.

Memória e reparação, sem discurso pronto

Não dá para honrar preto-velho e passar por cima do que ele viveu. A escravidão brasileira durou quase quatro séculos e deixou marcas que seguem entre nós: na terra, na renda, na escolaridade, na violência e no preconceito contra as religiões de matriz africana.

Aqui na casa a gente não transforma a gira em comício, e também não finge que nada disso existe. Reza-se pelos que morreram sem nome, agradece-se aos que sustentaram a fé em segredo e lembra-se de que a Umbanda só existe porque esse povo guardou o que sabia.

Reparação, no nosso entendimento, começa em gestos concretos: aprender a história direito, não repetir piada racista, respeitar o terreiro do vizinho e defender quem é atacado por causa da fé. Isso vale mais do que qualquer publicação bonita na data.

O que fazer em casa no dia 13

Você não precisa ser médium nem frequentar terreiro para marcar a data. Um gesto simples, feito com sinceridade, basta:

  1. Reserve um canto limpo da casa, longe de cortina, de papel e do alcance de crianças e animais.
  2. Acenda uma vela branca num prato ou castiçal firme, em local seguro, e nunca a deixe acesa sem ninguém por perto.
  3. Coloque ao lado uma xícara de café puro, sem açúcar ou com pouco, e uma flor, se tiver.
  4. Agradeça em voz baixa, com suas próprias palavras. Pode dizer o nome de avós e bisavós da sua família.
  5. Fique alguns minutos em silêncio. No dia seguinte, descarte o café na terra de uma planta.

Se quiser ir além do altar, leia sobre a história do povo negro no Brasil e ouça o que os mais velhos da sua família têm a contar. Preto-velho gosta disso.

Perguntas frequentes

O 13 de maio é uma comemoração da Lei Áurea?

Não do jeito que muita gente pensa. A Umbanda usa a data para honrar os espíritos que viveram a escravidão, e não para celebrar a assinatura. A abolição foi feita sem reparação nenhuma, e isso faz parte do que se lembra no dia.

Todo preto-velho foi escravizado no Brasil?

A maioria se apresenta assim, mas nem todos. Alguns falam de outras terras e de outros tempos. Na casa, a gente escuta o que a entidade conta e não fica interrogando origem.

Posso participar da gira de 13 de maio sem ser umbandista?

Pode. A gira aberta recebe visitantes de qualquer religião, e ninguém vai pedir que você mude a sua. Venha com roupa discreta e avise que é a sua primeira vez.

Posso acender vela para preto-velho sem pertencer a um terreiro?

Pode, com bom senso e segurança. Uma vela branca, um café e uma palavra de agradecimento são suficientes. Rituais maiores pedem orientação de uma casa.

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