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8 de agosto de 2026 · 7 min de leitura

27 de setembro, Cosme e Damião: doces e devoção

27 de setembro, Cosme e Damião: por que se distribuem doces, quem são os erês na Umbanda e como a casa celebra a data junto com as crianças.

Mãe Lu (Lucila Celete)

Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)

Não existe data mais barulhenta no nosso calendário. No 27 de setembro tem criança na porta do terreiro, saquinho de doce, bexiga colorida, música alta e adulto rindo de coisa boba. É assim mesmo, e é para ser assim.

Mas todo ano alguém me pergunta de onde saiu esse costume. Por que dois santos médicos viraram os donos do doce no Brasil? O que os gêmeos têm a ver com a Umbanda? E por que a criança espiritual, na nossa fé, é levada tão a sério justamente no dia em que tudo é brincadeira?

Neste texto conto as origens da data, como ela chegou até aqui, como celebramos na casa, os cuidados que hoje são obrigatórios ao distribuir doce e o que fazer em casa com as crianças da família.

Cosme, Damião e os ibejis: duas origens que se encontraram

No catolicismo, Cosme e Damião são irmãos gêmeos, médicos, que teriam vivido entre os séculos 3 e 4 na região da Síria e sido mortos por não renunciar à fé. São chamados de santos anárgiros, palavra que quer dizer "sem dinheiro", porque atendiam os doentes sem cobrar nada de ninguém.

Guarde esse detalhe: a devoção mais popular do doce brasileiro nasceu de dois santos que não cobravam pelo atendimento. Aqui na casa isso é lembrado todo ano, porque o passe e a consulta com as entidades também não são cobrados.

Do outro lado do encontro estão os ibejis. Entre os iorubás, na África Ocidental, o nascimento de gêmeos tem lugar sagrado, e existe todo um culto em torno deles, com esculturas, nomes próprios e oferendas. Não é a mesma coisa que os santos católicos, mas as duas devoções falam de gêmeos, de criança e de proteção. No Brasil elas se aproximaram.

De onde vem o costume de dar doce

A distribuição de doces no 27 de setembro é uma tradição brasileira popular, de rua, que não pertence a uma religião só. Ela cresceu principalmente no Rio de Janeiro e se espalhou pelo país.

A explicação mais contada é a da promessa: quem pedia aos santos gêmeos por uma criança da família se comprometia a distribuir doce no dia deles, para as crianças da vizinhança. Como a promessa era paga em público, a rua inteira participava. Com o tempo virou costume, com ou sem promessa.

Os terreiros entraram nessa festa de um jeito próprio, porque na Umbanda o 27 de setembro já era dia das crianças espirituais. Doce, criança e alegria: o encontro foi quase inevitável. Você encontra a data no calendário dos orixás.

Como o 27 de setembro virou o dia dos erês

Na Umbanda, a linha das crianças, ou erês, é formada por espíritos que se apresentam em forma de criança. Eles brincam, riem, aprontam, pedem doce e falam verdades duras com uma leveza que nenhum adulto consegue.

Não são espíritos infantis no sentido de atrasados. Costumo explicar aos filhos da casa que é o contrário: muitos deles são guias experientes que escolhem essa forma porque a criança entra onde a seriedade não entra. Escrevi com calma sobre essa linha em erês na Umbanda.

Vale uma distinção que confunde bastante gente: erê não é a mesma coisa que exu mirim. Os exus-mirins trabalham na esquerda da casa, em outro campo e com outro fundamento. São coisas diferentes, e cada uma tem a sua gira.

Como a casa celebra a data

A gira de erês, que é o nosso trabalho espiritual em roda, é a mais cheia e a mais bagunçada do ano. O congá, que é o altar do terreiro, recebe doces, frutas, brinquedos e flores coloridas. A curimba, que é o canto acompanhado dos atabaques, puxa pontos rápidos e alegres.

Tem bexiga colorida, bandeirinha e muita risada. Uma observação de sempre: balão de festa a gente enche e amarra, nunca solta no céu. Soltar balão é proibido por lei no Brasil, causa incêndio e mata animal. Festa boa não deixa estrago.

As crianças da família são bem-vindas nessa gira, e é uma das melhores datas para uma primeira visita com filho pequeno. Sobre isso escrevi em crianças podem ir na gira. A agenda das giras abertas fica em Giras. Se você mora por perto, será uma alegria receber a sua família aqui no templo, em Cotia, num 27 de setembro.

O cuidado moderno com os doces

Distribuir doce continua lindo. Só que hoje é preciso fazer isso com cabeça, e a casa orienta assim:

  • Doce industrializado de embalagem fechada. Nada de doce solto no saquinho ou feito em casa para desconhecido. Não é desconfiança, é responsabilidade.
  • Cheque a validade. Todo saquinho, um por um.
  • Pergunte ao adulto responsável antes de entregar. Criança com alergia a amendoim, a leite ou a corante pode passar muito mal.
  • Evite bala dura e pirulito com criança muito pequena. Risco de engasgo é real.
  • Nada de doce na mão de criança que você não conhece sem o adulto por perto.
  • Recolha o lixo depois. Saquinho plástico no chão da rua acaba no bueiro e no rio.

E um cuidado de convivência: se alguém recusar o doce por convicção religiosa, agradeça e siga. A festa é oferta, não é insistência. Do mesmo jeito, quem distribui merece respeito, venha de terreiro, de igreja ou de nenhum lugar.

O que os erês ensinam aos adultos

Toda gira de criança me devolve as mesmas lições, e elas não são infantis:

  • Falar a verdade sem crueldade. Erê diz o que vê e ninguém sai ferido.
  • Não fingir. Eles não caem em pose, título ou roupa bonita.
  • Recomeçar rápido. Criança briga e esquece. Adulto carrega mágoa por dez anos.
  • Alegria que alivia. O riso de uma criança desarma qualquer adulto. E aqui eu sempre lembro: a Umbanda caminha junto com o acompanhamento médico e psicológico, nunca no lugar dele.
  • Pedir colo quando precisa. Muita gente adoece de não pedir ajuda.

O que fazer em casa com as crianças da família

Não precisa de terreiro nem de ritual complicado para viver a data:

  1. Separe um cantinho limpo e coloque dois copos de suco natural ou de água, doces simples e uma fruta.
  2. Se quiser acender uma vela branca, use prato ou castiçal firme, em local seguro, longe de cortina e fora do alcance de crianças e animais. Nunca deixe vela acesa sem ninguém por perto.
  3. Chame as crianças da casa para ajudar a montar. Elas entendem esse dia melhor do que nós.
  4. Conte para elas quem foram Cosme e Damião, com palavras simples.
  5. Distribua doce para a vizinhança, com os cuidados da lista acima, e deixe a criançada distribuir junto.
  6. No fim do dia, coma os doces em família e descarte as frutas na terra de uma planta.

É um gesto pequeno e dos que mais ficam na memória de quem cresce numa casa de fé.

Perguntas frequentes

Cosme e Damião são os mesmos que os erês da Umbanda?

Não exatamente. Cosme e Damião são santos católicos, com história própria. Os erês são uma linha de guias da Umbanda. O sincretismo brasileiro aproximou as duas coisas na mesma data, e essa correspondência varia de região e de casa.

Posso distribuir doces sem ser umbandista?

Pode, e muita gente faz. A distribuição de doces no 27 de setembro é uma tradição popular brasileira, praticada por católicos, umbandistas e por quem não segue religião nenhuma.

Criança pode ir na gira de erês?

Na nossa casa, sim, acompanhada de um adulto responsável. É uma gira alegre, com música e movimento, e costuma ser uma boa primeira experiência. Se a criança se cansar ou se assustar, saia com ela sem constrangimento.

Por que os erês pedem doce?

O doce é oferta e é linguagem. Ele representa a alegria simples, a recompensa sem cobrança e o carinho que se dá sem esperar nada. Não é pagamento por favor nenhum: nenhuma entidade séria negocia resultado.

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