15 de setembro de 2026 · 5 min de leitura
Caboclos na Umbanda: quem são e como trabalham
Caboclos na Umbanda: quem são esses guias ligados às matas e aos povos originários, como trabalham na gira, seus orixás e o sentido do brado e das ervas.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Quem já esteve numa gira de caboclos não esquece o primeiro brado. Aquele grito forte, que parece vir da mata, atravessa o terreiro e muda o ar do lugar. Muita gente se assusta na primeira vez. Depois, sente falta.
Os caboclos são guias de força, firmeza e sabedoria. Costumo explicar aos filhos que eles ensinam a olhar a vida como um caçador olha a mata: com atenção, paciência e coragem na hora certa.
Neste texto vou contar quem são os caboclos, a ligação deles com a história da Umbanda, como se manifestam na gira, quais orixás sustentam essa linha e o que buscar numa consulta com eles. Do jeito que vivemos aqui no templo, na Umbanda Sagrada.
Quem são os caboclos
A palavra caboclo, no português do dia a dia, já foi usada para falar de pessoas de ascendência indígena e europeia. Na Umbanda, ela ganhou outro sentido: nomeia os espíritos que se apresentam como indígenas, de muitas nações e tempos diferentes.
Eles trazem a memória dos povos que conheciam a terra, as plantas, os rios e os bichos muito antes de qualquer colonizador. Por isso trabalham tão perto da natureza e dominam o conhecimento das ervas.
Os nomes costumam falar da mata, do céu e dos elementos: Caboclo Pena Branca, Sete Flechas, Tupinambá, Cobra Coral, Cabocla Jurema, Cabocla Jupira. Muitos caboclos são o guia-chefe de um médium ou de uma casa inteira. Conheça mais em linha dos caboclos.
O caboclo que abriu a Umbanda
A história da Umbanda começa com um caboclo. Em 1908, por meio do médium Zélio de Moraes, manifestou-se o espírito que se apresentou como Caboclo das Sete Encruzilhadas. Ele explicou que escolhia esse nome porque, para ele, não haveria caminhos fechados.
A mensagem era clara: uma nova corrente, aberta a todos os espíritos de boa vontade, inclusive os de indígenas e africanos, que naquela época não eram bem recebidos em muitos espaços espirituais. Conto mais em O que é Umbanda e na página sobre a história da Umbanda.
Como um caboclo se manifesta
Quando um caboclo chega, o corpo do médium costuma se firmar. A postura fica ereta, o peito aberto, os movimentos amplos. Às vezes o caboclo faz o gesto de quem puxa um arco ou olha ao longe.
O brado é o cumprimento e a assinatura do caboclo. Ele anuncia a chegada, sacode energias paradas e firma a presença no terreiro. Cada caboclo tem o seu.
Muitos trabalham com charuto, cuja fumaça limpa quem está sendo atendido. Outros usam ramos de ervas nos passes e no bate-folha, a limpeza feita com folhas batidas levemente pelo corpo. Em algumas casas, usam penas ou cocar.
Os caboclos falam pouco e vão direto ao ponto. Não gostam de rodeio. Quando dão um conselho, é para ser seguido.
As penas, aliás, têm significado. Para os chamados caboclos de pena, elas representam sabedoria ancestral, elevação e comunicação com o plano espiritual, como se cada pena fosse uma mensagem trazida pelo vento. A cor da pena costuma indicar a vibração com que aquele caboclo trabalha.
Caboclos e orixás
Na nossa teologia, os caboclos aparecem nas falanges de vários orixás. A ligação mais conhecida é com Oxóssi, o orixá das matas e do conhecimento, que forma com Obá o Trono do Conhecimento. Sob Obá trabalham os caboclos da terra.
Mas há caboclos também nas falanges de Xangô, de Ogum, de Oxalá e de outros orixás. E há caboclas que trabalham nas águas, sob Oxum e Iemanjá. O orixá indica o campo de atuação de cada caboclo: conhecimento, justiça, lei, fé.
No nosso calendário, Oxóssi, senhor das matas e tão ligado aos caboclos, é celebrado em 20 de janeiro, dia em que o sincretismo lembra São Sebastião. Outras casas podem usar outra data, e está tudo bem.
O que buscar numa consulta com caboclo
O caboclo é um grande aliado nos momentos em que você precisa de coragem, direção e decisão. Ajuda a limpar o que está pesado, a firmar o passo e a enxergar o que você está evitando ver.
Um ensinamento que os caboclos repetem muito é o do caçador: saber a hora de esperar e a hora de agir. Quem caça não sai correndo pela mata. Observa, silencia, espera o momento certo. Só então a flecha vai certeira. Muita ansiedade da vida moderna se acalma com essa lição.
Os caboclos também costumam indicar banhos de ervas. Siga o que foi orientado, com cuidado: erva desconhecida não vai no banho, gestantes e pessoas com alergia devem consultar antes, e nenhuma erva de banho deve ser ingerida. Para conhecer as ervas e seus usos espirituais, o e-book Ervas Sagradas é um bom companheiro.
Respeito aos povos originários
Cultuar caboclos pede um cuidado a mais: não transformar os povos indígenas em fantasia. O caboclo é um espírito de luz, não uma caricatura de filme.
Os povos originários existem hoje, com suas línguas, suas terras e suas lutas. Honrar os caboclos na gira é também respeitar os indígenas vivos, fora do terreiro. Costumo lembrar aos filhos que a Umbanda nasceu reconhecendo a grandeza desses espíritos, e isso nos coloca uma responsabilidade.
Venha sentir a força de uma gira de caboclos aqui no templo, em Cotia. A agenda está em Giras, e se for sua primeira vez, leia antes Primeira vez na Umbanda.
Perguntas frequentes
Caboclo é o mesmo que indígena?
Na Umbanda, os caboclos são espíritos que se apresentam como indígenas. Mas a palavra fala do guia espiritual, não dos povos indígenas de hoje, que merecem ser chamados pelos nomes de suas próprias nações.
Existem caboclas?
Sim. As caboclas trabalham com a mesma força, muitas vezes ligadas às águas e às matas. Cabocla Jurema e Cabocla Jupira estão entre as mais conhecidas.
Por que o caboclo dá aquele brado?
O brado é a assinatura do caboclo. Anuncia sua chegada, movimenta energias paradas e firma a presença dele no terreiro. Cada caboclo tem o seu.
O que significa "Okê, Caboclo"?
É a saudação aos caboclos na Umbanda, uma forma de louvar e dar as boas-vindas a esses guias. Você vai ouvir essa saudação muitas vezes durante a gira.
Para aprofundar
Aprofunde o estudo com estes materiais
E-book digital (PDF)
E-book Teologia para Umbandistas
História, fundamentos, rituais e os 14 orixás, para quem quer entender a Umbanda que vive.
Curso de estudos teológicos de Umbanda — formato e datas pelo WhatsApp
Curso de Teologia de Umbanda
Estudos teológicos de Umbanda a partir da apostila do Templo Filhos do Tempo.
Leia também
- Erês na Umbanda: as crianças, Cosme e Damião e a festaErês na Umbanda são guias crianças de alegria e pureza. Entenda a linha, a ligação com Cosme e Damião e Ibeji, o 27 de setembro e o sentido dos doces.Ver página
- Pretos-velhos: quem são e como trabalham na UmbandaPretos-velhos são guias de sabedoria e paciência na Umbanda. Conheça sua história, como atendem, o 13 de maio e como conversar com vovôs e vovós na gira.Ver página
- Umbanda é monoteísta? Olorum e os orixás explicadosUmbanda é monoteísta: cremos em um só Deus, Olorum. Entenda o que são os orixás nessa visão, os outros nomes de Deus e por que não se trata de politeísmo.Ver página
Ler ajuda. Vir a uma gira ajuda mais.
Se algum texto despertou vontade de conhecer a Umbanda de perto, pergunte pelo WhatsApp o dia da próxima gira aberta.
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)