10 de setembro de 2026 · 5 min de leitura
Pombagira: quem é de verdade e como trabalha na Umbanda
Pombagira não é demônio nem mulher de má fama. Entenda quem é essa guardiã da esquerda, como trabalha o desejo e a autoestima e o que não se pede a ela.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Se Exu carrega preconceito, Pombagira carrega em dobro. Sobre ela recaem dois julgamentos ao mesmo tempo: o de ser "coisa do mal" e o de ser "mulher de má fama". Muita gente só conhece a Pombagira dos filmes, das novelas e das conversas de corredor.
Aqui no templo, a Pombagira é recebida com respeito e carinho. Costumo explicar aos filhos que ela é guardiã, trabalha na Lei de Deus e tem muito a ensinar sobre desejo, limite, autoestima e liberdade.
Neste texto vou contar quem é a Pombagira na Umbanda Sagrada, como ela trabalha, por que é tão mal compreendida e o que não se pede a ela. Com clareza e sem sensacionalismo.
De onde vem o nome
Muitos estudiosos ligam o nome Pombagira a Pambu Njila, divindade dos caminhos e das encruzilhadas nos cultos de origem banto. Com o tempo, a pronúncia se transformou no Brasil e ganhou a forma que conhecemos.
A ligação com os caminhos continua viva. Assim como Exu, a Pombagira tem seus pontos de força nas encruzilhadas. Os dois trabalham juntos na esquerda, que chamamos de "a esquerda de Deus". Se você ainda não leu, recomendo começar por Exu não é o diabo.
A guardiã do desejo e da vontade
Um ensinamento que uso muito aqui no templo: Exu é o vazio, Pombagira é o abismo. Exu irradia vitalidade. Pombagira irradia vontade, estímulo, desejo.
Desejo, aqui, não é pecado. É o motor da vida. É o que nos faz levantar da cama, criar, amar, lutar por um sonho. Quando o desejo se desorganiza, vira vício, obsessão, relação que destrói. É nesse ponto que a Pombagira atua: nos desvios emocionais e do desejo, reorganizando o que saiu do eixo.
Ela trabalha falando de respeito, de independência, de virtude e de evolução. Ampara quem busca se reerguer e cobra, com firmeza, quem usa o desejo para ferir os outros. Saiba mais na página Pombagira.
Por que tanto preconceito
Muitas pombagiras se apresentam como mulheres que viveram fora dos padrões da sua época. Mulheres que falavam alto, que decidiam sobre a própria vida, que não aceitaram o lugar que a sociedade reservava para elas. Por isso foram julgadas e rotuladas.
O rótulo de "mulher de má fama" diz mais sobre a sociedade que julgou do que sobre elas. E ainda hoje, quando uma Pombagira gargalha, roda a saia e fala sem rodeios, há quem se escandalize. É justamente essa liberdade que incomoda.
Soma-se a isso a mesma confusão histórica que atingiu Exu: tudo o que vinha das religiões de matriz africana foi, por muito tempo, tratado como perigoso. A Pombagira herdou esse peso.
Como Pombagira trabalha numa gira
Numa gira de esquerda, a Pombagira chega com presença. Às vezes com gargalhada, às vezes com um olhar que parece enxergar por dentro. Os médiuns, aqui no templo, vestem preto.
Quando ela gargalha, bate a saia e roda, está limpando: os filhos, o terreiro e quem veio buscar ajuda. Não é espetáculo. É trabalho espiritual.
Seus elementos também têm sentido. A rosa vermelha fala de amor-próprio e beleza. O perfume encanta e limpa o ambiente. O espelho, que algumas trazem, convida a pessoa a se enxergar de verdade. Nada ali é enfeite à toa.
Na consulta, a Pombagira costuma ser direta. Fala de autoestima, de relações que fazem mal, de limites que a pessoa não consegue colocar, de desejos que já não cabem na vida. Muitas mulheres, e muitos homens, saem de uma conversa com ela enxergando a própria força pela primeira vez.
Falanges e nomes
Há muitas falanges de Pombagira. Você vai ouvir nomes como Maria Padilha, Maria Mulambo, Rosa Caveira, Sete Saias, Dama da Noite e Cigana. Cada nome indica um campo de atuação e a força de um orixá por trás. Conheça mais em linha das Pombagiras.
Um exemplo que costumo dar: na nossa compreensão, Maria Padilha trabalha na força de Logunan, a orixá do tempo. Ela atende muito quem está com a fé abalada, quem deixou de acreditar em si, no amor ou na própria religião. E ensina lições que só o tempo ensina: ame-se primeiro, e o amor certo encontra você.
Na nossa teologia, as pombagiras também aparecem entre as falanges sustentadas por Oxum, no Trono do Amor.
Existem ainda as Pombagiras Mirins, que trabalham ao lado dos Exus Mirins. Elas atuam na força da intenção, aquilo que vem antes de qualquer ação.
O que não se pede a Pombagira
Aqui preciso ser muito clara, porque é onde mais se erra:
- Pombagira não mexe na vontade de ninguém. Ela não é chamada para forçar um amor nem para desfazer o relacionamento de outra pessoa.
- Pombagira não é arma contra rival. Pedidos para prejudicar alguém não são atendidos, e a casa não faz esse tipo de trabalho.
- Pombagira não é serva de médium. Ela trabalha pela Lei, não por encomenda.
O que faz sentido pedir: amor-próprio, clareza, coragem para sair do que faz mal, desejo pela vida, força nas palavras, ética nas escolhas. Pedidos feitos dentro da Lei e da Justiça de Deus.
Pombagira e o feminino
A Pombagira fala muito sobre o feminino, mas não só às mulheres. Ela ensina a todos que desejo e dignidade podem caminhar juntos. Que dizer não também é amor. Que ninguém precisa pedir licença para existir.
Se você quer conhecer a Pombagira sem medo e sem caricatura, venha a uma gira aberta aqui no templo, em Cotia. Confira a agenda em Giras e entenda como funciona a gira de esquerda.
Perguntas frequentes
Pombagira é a mulher de Exu?
Não no sentido de casamento. Exu e Pombagira são parceiros de trabalho na esquerda, forças complementares que atuam juntas na Lei, na Justiça e na correção dos desvios.
Só mulheres recebem Pombagira?
Não. Homens também podem ser médiuns de Pombagira. A mediunidade não se define pelo gênero de quem incorpora.
Pombagira só trabalha com amor?
Não. Ela trabalha o desejo em todas as áreas da vida: autoestima, trabalho, criatividade, coragem, limites. O amor é apenas um dos campos.
Por que a Pombagira gargalha?
A gargalhada é uma forma de limpeza. Com ela, a Pombagira quebra energias pesadas no ambiente e em quem está sendo atendido. A saudação a ela é "Laroyê, Pombagira", e a corrente responde "Pombagira é saravá".
Para aprofundar
Aprofunde o estudo com estes materiais
E-book digital (PDF)
E-book Teologia para Umbandistas
História, fundamentos, rituais e os 14 orixás, para quem quer entender a Umbanda que vive.
Curso de estudos teológicos de Umbanda — formato e datas pelo WhatsApp
Curso de Teologia de Umbanda
Estudos teológicos de Umbanda a partir da apostila do Templo Filhos do Tempo.
Leia também
- Exu não é o diabo: quem é o guardião da UmbandaExu não é o diabo. Entenda de onde veio essa confusão, quem é Exu na Umbanda, o que significa a esquerda e por que ele é chamado de guardião da Lei divina.Ver página
- Umbanda e Quimbanda: diferenças explicadas com respeitoUmbanda e Quimbanda: as diferenças entre as duas tradições, o que a nossa casa pratica e por que o respeito vale mais do que qualquer comparação.Ver página
- O que é kiumba na Umbanda e como a casa cuidaO que é kiumba na Umbanda, por que esse espírito se aproxima, como a casa lida com ele sem alarde e o que você mesmo pode fazer no seu dia a dia.Ver página
Ler ajuda. Vir a uma gira ajuda mais.
Se algum texto despertou vontade de conhecer a Umbanda de perto, pergunte pelo WhatsApp o dia da próxima gira aberta.
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)