9 de julho de 2026 · 6 min de leitura
Passe e descarrego: qual a diferença na Umbanda
Passe e descarrego: qual a diferença entre os dois na Umbanda, para que serve cada um, como são feitos na gira e por que você sente o corpo leve.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Muita gente sai da gira dizendo "tomei um passe" para qualquer coisa que aconteceu ali. E muita gente sai dizendo "levei um descarrego" sem saber direito o que foi feito. Os dois nomes se misturam na boca do povo, e não tem problema nenhum nisso.
Mas quando a gente entende a diferença, aproveita melhor. São dois trabalhos distintos, com finalidades distintas, e é bem comum receber os dois na mesma tarde.
Vou explicar cada um com calma, contar como são feitos na nossa casa, dizer o que você pode sentir — e o que fazer depois, que é a parte que quase ninguém leva a sério.
O que é o passe
O passe é transmissão de energia. A entidade usa o próprio campo de força e o do médium para ajustar o seu, como quem organiza uma casa desarrumada sem jogar nada fora.
Na prática, o que você vê é isto: a entidade aproxima as mãos do seu corpo, em geral sem encostar, faz movimentos sobre a cabeça, os ombros, as costas. Às vezes sopra. Às vezes usa fumaça de charuto ou cachimbo. Às vezes fica só parada na sua frente por alguns segundos, e é só o que precisava.
O sentido do passe é cuidado e equilíbrio. Ele serve para reequilibrar quem está abatido, acalmar quem está agitado, reforçar quem está enfraquecido, trazer clareza para quem está confuso.
Passe não é urgência. É manutenção. Como tomar água e dormir bem: faz diferença justamente porque é constante.
O que é o descarrego
O descarrego é retirada. É limpeza. Enquanto o passe ajusta e fortalece, o descarrego tira o que está pesando e não pertence a você.
E o que é esse peso? Nem sempre é coisa dramática. Na maior parte das vezes é acúmulo: mágoa guardada, ambiente carregado, discussão que não terminou, cansaço de lidar com dor alheia, o desgaste de um período difícil. Energia densa gruda como poeira em móvel, sem pedir licença.
O descarrego é feito com elementos da natureza. Ervas, fumaça, folha, pemba, água. A entidade conduz e os elementos fazem o trabalho de arrastar para fora o que está sobrando.
Uma coisa importante: descarrego na nossa casa não é feito com alarde, nem com susto, nem com anúncio de tragédia. Ninguém vai te dizer que você está em perigo. Limpeza é rotina, não é emergência.
Ervas, defumação e bate-folha: o que é cada coisa
Três palavras aparecem sempre que se fala em descarrego, e vale destrinchar.
Defumação. A defumação é a queima de ervas e resinas para que a fumaça limpe o ambiente e as pessoas. Na gira ela costuma abrir o trabalho: alguém passa com o turíbulo, que é o recipiente onde a erva queima, e todos recebem a fumaça. Dá para fazer uma versão simples em casa, e expliquei o passo a passo em Como fazer defumação em casa.
Banho de ervas. É a erva em água, usada do pescoço para baixo depois do banho normal. Existem ervas de limpeza e ervas de agregação, com finalidades opostas. Use só erva que você conhece. Nunca ingerir, e gestantes ou pessoas com alergia devem conversar antes.
Bate-folha. O bate-folha é quando a entidade passa maços de folhas verdes pelo corpo da pessoa, batendo de leve dos ombros para baixo, sempre no sentido de tirar. É um dos trabalhos mais antigos e mais bonitos que temos. Depois, as folhas usadas são descartadas com respeito, porque levaram embora o que foi retirado.
Quando se usa um, quando se usa o outro
A escolha não é sua nem minha: é da entidade que está atendendo. Ela olha e sabe.
Como regra geral:
- Quem chega pesado, irritado, com sensação de sujeira ou vindo de um período muito desgastante tende a receber descarrego primeiro.
- Quem chega triste, sem energia, disperso ou precisando de firmeza tende a receber passe.
- Quem chega das duas formas ao mesmo tempo — que é a maioria de nós — recebe os dois.
E é por isso que tanta gente recebe descarrego e passe na mesma tarde. A ordem faz sentido: primeiro se tira o que está sobrando, depois se repõe o que está faltando. Limpar e só então encher. Ninguém pinta parede suja.
Quem aplica
Passe e descarrego são aplicados pelas entidades incorporadas nos médiuns da corrente, nunca pelo médium por conta própria. Os cambones, que são os auxiliares da gira, ajudam segurando as ervas, acendendo o que for preciso e orientando a fila.
O dirigente da casa acompanha o conjunto do trabalho e diz quando é hora de cada coisa. Existe ordem, existe começo e existe fim. Gira não é improviso.
E aqui vale a frase que repito sempre: o passe não é cobrado, e o descarrego também não se cobra. Na nossa casa, atendimento espiritual de gira não tem taxa de espécie nenhuma.
O que se sente — e não sentir nada também é normal
As sensações mais comuns são arrepio, calor subindo, formigamento nas mãos, bocejo repetido, vontade de chorar, leveza nos ombros, um sono gostoso depois.
Outras pessoas sentem exatamente nada. Nada mesmo. E isso não significa que não funcionou.
Costumo explicar aos filhos da casa que sensação é linguagem do corpo, e cada corpo fala de um jeito. Tem gente muito sensível a estímulo sutil e tem gente que só percebe a mudança dias depois, quando repara que dormiu melhor ou que não explodiu numa situação que antes teria explodido.
Então não fique comparando a sua experiência com a do vizinho de fila. O trabalho não é medido por emoção.
O que fazer depois
Essa parte é sua, e é a que mais sustenta o resultado.
- Beba água. Bastante, no resto do dia.
- Coma algo leve. Deixe a refeição pesada para depois.
- Descanse. Se puder, evite compromisso agitado logo em seguida.
- Evite bebida alcoólica no dia.
- Evite discussão, ambiente carregado e rolagem infinita de notícia ruim.
- Tome um banho normal na hora que chegar, se sentir vontade, e durma cedo.
Agora o cuidado mais importante deste texto, e eu peço que você leia com atenção: passe e descarrego não substituem acompanhamento médico ou psicológico. Se você toma medicação, continue tomando. Se está em terapia, continue indo. Se sente dor, procure médico. A Umbanda caminha junto com o cuidado profissional, nunca no lugar dele — e qualquer casa séria vai te dizer exatamente isso.
Se você quiser experimentar, as nossas giras são abertas a quem chega. A agenda está na página da gira de Umbanda em Cotia. Pode vir só para assistir, se preferir. Ninguém aqui empurra nada em ninguém.
Perguntas frequentes
Posso tomar passe todo fim de semana?
Pode, sem exagero de expectativa. Passe é manutenção, e manutenção funciona pela constância. O que eu não recomendo é sair correndo atrás de passe em várias casas diferentes na mesma semana, achando que quantidade resolve.
Descarrego dói ou é assustador?
Não. Na nossa casa o descarrego é feito com calma, com folha e fumaça, sem susto e sem cena. Se em algum lugar você foi tratado com medo, saiba que medo não é ferramenta de trabalho espiritual.
Preciso pedir passe ou descarrego, ou a entidade vê sozinha?
Pode pedir, e pode também apenas se apresentar. A entidade enxerga o que você traz e conduz. Se você tiver alguma condição de saúde, sensibilidade a fumaça ou dificuldade para ficar de pé, avise um cambone antes.
Criança e gestante podem receber?
Podem, com cuidado. Criança sempre acompanhada do responsável e nunca obrigada. Gestante deve avisar a casa, sentar se precisar e evitar fumaça direta. Basta dizer a um cambone, que ele adapta.
Para aprofundar
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