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14 de julho de 2026 · 7 min de leitura

O que significa cruzar a gira na Umbanda

O que significa cruzar a gira na Umbanda: o sentido do cruzamento, quem faz, em que momento acontece e por que isso organiza o trabalho da casa.

Mãe Lu (Lucila Celete)

Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)

Quem assiste a uma gira pela primeira vez repara num gesto e não entende: alguém desenha uma cruz no chão com um giz branco, ou faz um sinal no ar com o incenso aceso, antes de qualquer outra coisa acontecer.

Aí vem a pergunta que já ouvi dezenas de vezes na porta do templo: o que foi aquilo? É proteção? É magia? É só tradição?

Neste texto vou explicar o que significa cruzar a gira, o que é a pemba, quem faz o cruzamento, em que momentos ele acontece, por que existe o encerramento no fim do trabalho e qual é a diferença entre cruzar e riscar ponto. Tudo do jeito que a nossa casa pratica.

Cruzar é selar, assinar, firmar

Cruzar quer dizer marcar com a cruz. E a cruz, na Umbanda, não é ornamento: é o sinal dos quatro pontos, do encontro entre o alto e o baixo, o direito e o esquerdo. É o desenho que diz "aqui há ordem".

Quando cruzamos alguma coisa, estamos selando aquilo em nome da Lei Maior. É como assinar um documento. A assinatura não muda o papel, mas diz de quem ele é, para que serve e sob qual autoridade está.

Por isso digo aos filhos que cruzar é assinar o trabalho. Depois de cruzado, aquele espaço não é mais um salão qualquer: é um lugar reservado, com finalidade declarada e com responsáveis. O que não foi chamado não entra, e o que foi chamado sabe exatamente onde está pisando.

A pemba, o giz sagrado

A pemba é o giz sagrado da Umbanda. É um giz de formato cônico, feito de pó calcário compactado, que existe em várias cores e que a casa consagra antes de usar.

Com a pemba se desenha no chão, no congá (o altar do terreiro), nas mãos, nas portas, nos objetos de trabalho. O traço dela não é decoração: é escrita. A pemba escreve na energia do lugar.

Quando a pemba não é usada, o cruzamento pode ser feito com o incenso ou com o defumador, desenhando a cruz na fumaça. O sentido é o mesmo: marcar, selar, declarar. E também acontece de se cruzar apenas com a mão e com a palavra, quando o momento pede discrição.

Cada cor tem uma aplicação dentro do fundamento da casa, e isso varia bastante de terreiro para terreiro. Na nossa, quem determina a cor e o traço é sempre a direção do trabalho.

Quem cruza

Não é qualquer um que cruza, e isso não tem nada a ver com privilégio.

Quem cruza é o dirigente da casa, ou quem ele determinar para aquela função. Em algumas ocasiões é um médium mais velho de corrente, em outras é o ogã ou alguém já preparado para a tarefa. Sempre alguém que conhece o fundamento e responde pelo que está fazendo.

A razão é simples: cruzar é assumir responsabilidade sobre aquilo que se sela. Quem assina responde. Por isso o filho novo observa, aprende e só faz quando for chamado a fazer. Aprender olhando é parte do caminho, e não castigo.

Em que momentos se cruza

Dentro da nossa rotina, o cruzamento aparece em quatro momentos principais.

  1. Abertura da casa. Antes de qualquer pessoa entrar, o espaço é limpo, defumado e cruzado. É o momento em que o salão deixa de ser salão e vira terreiro.
  2. Cruzamento do congá. O altar é cruzado e firmado, com as velas e as águas no lugar. O congá é o centro de força da casa, e o trabalho inteiro se apoia nele.
  3. Cruzamento dos médiuns. Antes de a corrente começar, os médiuns são cruzados, em geral nas mãos, na testa e na nuca. Isso sela o corpo de quem vai trabalhar e o coloca sob a mesma ordem do ambiente.
  4. Cruzamento de firmeza. Quando se firma uma firmeza, que é o ponto de força mantido com vela, água e oração, ela também é cruzada. Aquele ponto passa a ser um lugar marcado dentro da casa ou dentro do seu quarto.

Antes de tudo isso costuma vir a defumação, porque a ordem é sempre a mesma: primeiro limpa, depois sela. Não adianta assinar em cima de sujeira.

Descruzar: por que o fim importa

Tudo que se abre, se fecha. Essa é uma regra de casa que eu não abro mão.

No fim do trabalho, a gira é encerrada. Agradece-se às entidades, despacha-se com respeito o que precisa ser despachado, apagam-se as velas do trabalho e o espaço é liberado. Algumas casas chamam esse momento de descruzar, outras de encerrar ou fechar a gira.

Isso importa por um motivo bem prático. Um campo aberto e esquecido fica pesado, atrai o que não foi chamado e cansa quem convive com o lugar. Abrir sem fechar é como deixar a torneira correndo.

Vale para a sua casa também. Se você acendeu uma vela e fez um pedido, agradeça e encerre depois, em vez de deixar o assunto pendurado no ar. Vela, sempre, em local seguro, longe de cortina e de papel, fora do alcance de crianças e de animais, e nunca acesa sem ninguém por perto.

Cruzar a gira e riscar ponto não são a mesma coisa

Essa confusão é muito comum, e a diferença é clara quando se explica.

Cruzar é selar. É um gesto de autoridade e de ordenação, feito com a cruz, que marca um espaço, um objeto ou uma pessoa em nome da Lei. Tem sempre a mesma função, mesmo quando muda o desenho.

Riscar ponto é outra coisa. O ponto riscado é a assinatura da entidade, o desenho que ela traça para se identificar, para firmar uma determinação ou para realizar um trabalho específico. Quem risca é o guia incorporado, e cada risco carrega um conteúdo próprio.

Ou seja: o cruzamento é a moldura, o ponto riscado é o que se escreve dentro dela. Um não substitui o outro, e os dois convivem na mesma tarde de trabalho.

Cada casa tem o seu modo

Preciso dizer isto com clareza, porque a Umbanda é diversa e isso é uma riqueza.

Na Umbanda Sagrada, que é a vertente que seguimos aqui, o cruzamento tem a forma e a sequência que acabei de descrever. Outras casas cruzam em outro momento, com outras cores, com outras palavras, ou usam bem menos a pemba. Está tudo bem. Cada casa tem fundamento próprio, recebido dos seus guias e da sua formação.

O que não muda em lugar nenhum é a intenção: organizar o trabalho, proteger quem está dentro dele e deixar claro sob que autoridade tudo acontece.

Se você tiver curiosidade de ver isso na prática, venha conhecer uma gira aberta aqui no templo, em Cotia. Chegue um pouco antes, sente com calma e observe a abertura: é ali que quase tudo o que descrevi acontece. Para saber o que esperar do começo ao fim, leia Como é uma gira de Umbanda e a página sobre gira.

Perguntas frequentes

Posso cruzar a minha própria casa?

Você pode e deve cuidar do seu espaço: limpeza, defumação, oração, vela firmada com segurança. O cruzamento ritual com pemba, porém, é feito com fundamento e com orientação. Converse com a sua casa antes de sair riscando cruz pelos cantos.

Preciso de pemba para cruzar alguma coisa?

Não necessariamente. O incenso, a fumaça do defumador, a água e até o gesto com a mão e a palavra cumprem o papel, dependendo do momento e do que a casa determina. A pemba é um instrumento, não um requisito absoluto.

Quem está na assistência é cruzado também?

Em geral, quem está na assistência não é cruzado, porque o cruzamento dos médiuns é ligado ao trabalho que eles vão fazer. O visitante recebe os cuidados da casa de outras formas, como a defumação na entrada e o passe durante a gira.

O que acontece se a gira não for encerrada direito?

O ambiente fica pesado e desorganizado, e as pessoas que convivem com ele sentem cansaço. Não é tragédia nem castigo: é desleixo, e se corrige refazendo a limpeza e encerrando como se deve na vez seguinte.

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