11 de agosto de 2026 · 7 min de leitura
Natal e Ano-Novo na Umbanda: como vivemos as datas
Natal e Ano-Novo na Umbanda: o que essas datas significam para quem é umbandista, o que se faz na casa e como atravessar a virada com calma e fé.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Dezembro chega e, junto com ele, chega uma dúvida que me procura todo ano: "Mãe Lu, agora que eu frequento a Umbanda, posso montar árvore de Natal? Posso ir à missa com a minha mãe? Posso fazer a ceia?"
Pode tudo isso. E eu vou além: em muitos casos, deve.
Neste texto quero falar do Natal e do Ano-Novo do jeito que vivemos aqui. O que essas datas significam para quem é umbandista, por que não existe contradição nenhuma em celebrá-las, o que a casa costuma fazer na virada, o que não ajuda em nada e um ritual simples e seguro para quem quiser marcar a passagem do ano em casa.
Natal: o nascimento de Jesus e o respeito a essa data
Comecemos pelo mais importante. O Natal é a celebração do nascimento de Jesus Cristo, uma data cristã, vivida com profundidade por milhões de irmãos católicos, evangélicos e ortodoxos.
A Umbanda tem respeito imenso por essa data e por essa fé. Não há nada na nossa religião que dispute o Natal com o cristianismo, e eu não escreveria uma linha sugerindo o contrário.
O umbandista, em geral, é alguém que tem Jesus no coração. Em muitíssimas casas, a imagem do Cristo está no congá, que é o altar do terreiro, no lugar mais alto. Na nossa, também está. Aqui se reza o Pai-Nosso antes de abrir qualquer trabalho.
Oxalá e o Cristo: uma correspondência que varia
No sincretismo brasileiro, muitas casas de Umbanda fazem a correspondência entre Oxalá e Jesus Cristo. Oxalá é o orixá da fé, o mais velho, o do branco, o da paz que não se altera. E vários terreiros veem nessa data o sentido do nascimento da luz no mundo.
Preciso ser clara: isso varia. Há casas que associam Oxalá a Nosso Senhor do Bonfim, outras a Jesus Cristo, outras a Nosso Senhor dos Passos, e há casas que não fazem correspondência nenhuma, entendendo que orixá é orixá e santo é santo. Nenhuma dessas leituras é errada. Expliquei de onde vem esse encontro de imagens no texto sobre sincretismo.
Na Umbanda Sagrada, que é a linha que seguimos, Olorum é o Deus único e os orixás são manifestações Dele. Oxalá é o orixá do Trono da Fé, ao lado de Logunan. Isso não substitui nem concorre com a figura do Cristo, que permanece no alto do congá.
Árvore, ceia e presente: nada disso contraria a Umbanda
Vou responder a pergunta prática que motivou este texto.
- Montar árvore? Pode. É um costume de família, bonito e afetivo.
- Fazer ceia? Pode, e faça. Mesa farta e gente reunida é fundamento em qualquer lugar do mundo.
- Dar e receber presente? Pode.
- Ir à missa ou ao culto com a família? Pode, com respeito ao espaço de quem recebe. Visitante educado é bem-vindo em qualquer templo.
- Cantar música de Natal? Pode, e desafine à vontade.
A Umbanda não exige ruptura com a sua família nem com a cultura em que você cresceu. Se a sua casa se reúne no dia 24, esteja lá. Se a sua avó reza o terço, sente-se junto.
O que oriento é uma coisa só: sinceridade. Não finja uma fé que não tem para agradar, e não debocha da fé que os outros têm.
O que o Natal pede de quem é umbandista
Para nós, a data carrega quatro palavras que a Umbanda leva muito a sério.
Paz. Não a paz de enfeite, a paz difícil: a de não responder à provocação do cunhado na mesa da ceia.
Família. Nem toda família é fácil, e algumas machucam. Mas dezembro costuma ser a chance de reaproximar quem quer ser reaproximado.
Perdão. Aqui está o trabalho pesado. Perdoar não é dizer que estava tudo bem. É parar de carregar.
Recomeço. O ano acabando é um convite honesto a olhar o que você fez com os últimos doze meses.
Dezembro também é mês em que a saudade aperta. Se você perdeu alguém neste ano, a cadeira vazia vai pesar. Falei desse cuidado com os nossos que partiram em Dia de Finados na Umbanda.
Ano-Novo: fechamento de ciclo, não passe de mágica
Chegamos ao 31.
A virada do ano não tem poder nenhum sobre a sua vida. O que tem poder é o que você decide fazer com ela. Costumo dizer aos filhos da casa que meia-noite não resolve o que a atitude de janeiro em diante vai resolver.
Dito isso, marcar a passagem tem valor. O ser humano precisa de rito. Um ponto final consciente em um ciclo ajuda a começar o outro com a cabeça mais arrumada.
Em muitas casas, o 31 é dia de ir à praia e de homenagear Iemanjá, com flores brancas e água salgada. Em outras, a virada é só de agradecimento, em casa, de roupa branca, com a vela do anjo da guarda acesa. Odoyá é a saudação de Iemanjá, e ela se ouve muito nessa noite.
Se for para o mar, cuidado redobrado: praia cheia à noite, com bebida circulando, é lugar de acidente. Não entre no mar embriagado, não entre sozinho, não entre à noite. Homenagem não exige risco.
O que não fazer na virada
Essa lista é a que mais poupa sofrimento.
- Promessa impossível. "Ano que vem eu mudo tudo" não é meta, é frustração marcada para fevereiro.
- Lista de pedidos como barganha. A espiritualidade não é balcão. Não se negocia com orixá.
- Esperar que o ano resolva. Nenhum ritual substitui conversa difícil, terapia, currículo enviado ou dívida renegociada.
- Repetir simpatia que você não entende. Se ninguém soube te explicar para que serve, não faça.
- Exagero com o corpo. Chegar em janeiro quebrado não é começo bonito de nada.
E lembre sempre: a Umbanda caminha junto com o acompanhamento médico e psicológico, nunca no lugar dele. Se dezembro te derruba emocionalmente todo ano, isso merece cuidado profissional, e não só vela.
Um jeito simples e seguro de marcar a virada
Para quem quiser algo em casa, sem complicação e sem improviso perigoso, é isto que costumo orientar.
- Escreva o que você agradece. Papel e caneta, sem pressa, à tarde do dia 31. Não escreva pedidos, escreva agradecimentos do ano que passou. É mais difícil e vale mais.
- Arrume a casa. Limpe, abra janela, tire o que está quebrado e o que não serve mais. Ambiente carregado é ambiente bagunçado, na maioria das vezes.
- Tome um banho com calma. Pode ser o banho de sal grosso, do pescoço para baixo, ou um banho de ervas com erva que você conheça bem. Erva desconhecida não vai no banho, nunca se ingere nada, e gestantes ou pessoas com alergia devem conversar antes com a casa e com o médico.
- Vista branco, se quiser. É costume, não obrigação.
- Acenda uma vela branca. Em local firme, longe de cortina, de papel e de tomada, fora do alcance de crianças e de animais, e nunca acesa sem ninguém por perto. Agradeça em voz baixa e pronto.
- Vá dormir em paz. O ano começa quando você acorda e faz.
Aqui no templo, em Cotia, esse período é de agradecimento e de recolhimento. Se em algum momento você quiser atravessar essa virada perto de uma casa de Umbanda, a porta fica aberta e ninguém precisa chegar sabendo de nada.
Perguntas frequentes
Umbandista pode comemorar o Natal?
Pode, com toda a tranquilidade. O Natal é uma data cristã, respeitada por nós, e nada na Umbanda proíbe árvore, ceia, presente ou a reunião da família. Muitas casas têm a imagem do Cristo no congá.
Oxalá é Jesus?
Em muitas casas de Umbanda existe essa correspondência no sincretismo, mas ela varia bastante: há casas que associam Oxalá a outros títulos do Senhor e há casas que não fazem correspondência nenhuma. Pergunte ao dirigente da sua casa qual é o fundamento de lá.
Preciso ir à praia no dia 31?
Não. Ir ao mar homenagear Iemanjá é costume de algumas casas, não é obrigação de ninguém. Quem mora longe do litoral, quem tem saúde delicada ou quem simplesmente prefere ficar em casa pode marcar a virada com uma vela branca e um agradecimento.
Vale a pena fazer pedido na virada do ano?
Vale mais agradecer e definir uma atitude concreta para janeiro. Pedido vira barganha com facilidade, e a espiritualidade não funciona como troca. Agradecimento organiza o coração; atitude muda a vida.
Para aprofundar
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