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17 de agosto de 2026 · 7 min de leitura

Como anotar o que o guia falou na consulta

Como anotar o que o guia falou na consulta: um método simples para registrar, separar orientação de interpretação e reler o caderno meses depois.

Mãe Lu (Lucila Celete)

Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)

Vou descrever uma cena que se repete. A pessoa sai da consulta com o guia, atravessa o terreiro, chega em casa, e à noite tenta contar para alguém o que ouviu. Consegue contar uma frase. O resto virou uma névoa boa, mas névoa.

Uma semana depois, resta o sentimento e não a orientação. E aí acontece o pior: a memória começa a preencher os buracos com o que a gente queria ter ouvido.

Neste texto vou passar um método simples de anotação. Nada complicado: um caderno barato, cinco minutos na saída da gira e uma disciplina pequena. É uma das coisas que mais muda o aproveitamento de quem frequenta a casa.

Por que a memória falha justamente aí

Não é distração nem falta de fé. É como a nossa cabeça funciona.

A consulta é um momento de emoção alta. Você está diante de um médium incorporado, ou seja, com a entidade se manifestando através dele, e muitas vezes ouve algo que mexe com uma ferida antiga. Emoção forte grava a sensação e apaga o detalhe. Se quiser entender melhor o que acontece nesse momento, leia sobre incorporação.

Some a isso o ambiente: atabaque tocando, gente conversando, fila atrás de você, o cambone, que é o auxiliar da gira, já chamando o próximo. Você ouve a orientação com metade da atenção disponível.

E tem o tempo. A consulta é curta. Muita informação em poucos minutos, sem pausa para assentar. Por isso o registro não é frescura de quem gosta de papel. É o que separa uma tarde bonita de uma orientação que você consegue usar.

Anote assim que sair

A regra é essa: quanto antes, melhor. Não espere chegar em casa.

Anote ainda no terreiro, num canto tranquilo, ou dentro do carro antes de dar a partida, ou no ponto de ônibus. Cinco minutos. O que você registra nesses cinco minutos vale mais do que meia hora de tentativa de lembrança no dia seguinte.

Durante a consulta, prefira não escrever. Escrevendo você para de escutar, e o pouco tempo que tem se perde no papel. Escute inteiro, olhe nos olhos, responda quando o guia perguntar. Escrever é depois.

Se você tem memória ruim, tudo bem. Comece anotando só as frases soltas que ficaram, sem ordem. A ordem você coloca depois.

O método das três colunas

Aqui está o coração do método. Divida a página em três partes:

1. O que ele disse. As palavras dele, o mais fiel que você conseguir. Frases curtas, entre aspas quando lembrar exato. Nada de resumo elegante.

2. O que eu entendi. A sua leitura. "Acho que ele estava falando do meu irmão." "Entendi que ele quis dizer para eu parar de insistir."

3. O que eu vou fazer. A ação. Concreta, pequena, com prazo seu. "Ligar para o meu irmão até domingo."

Por que separar? Porque a primeira coluna é a única que é do guia. As outras duas são suas. Quando tudo vem misturado num parágrafo só, seis meses depois você não distingue mais o que foi dito do que você imaginou. E aí passa a atribuir à entidade uma frase que nunca existiu.

Essa separação é a parte mais importante deste texto. Se você guardar uma coisa só, guarde essa.

Data, guia e o que não se grava

No alto da página, sempre: a data, a gira daquele dia e qual guia atendeu você. Um preto-velho, um caboclo, uma pombagira, um exu. Se você não souber o nome, escreva a linha.

Isso parece detalhe e não é. Com o tempo você começa a perceber padrões: um mesmo assunto volta com guias diferentes, uma orientação se repete, algo que foi dito há um ano se encaixa numa coisa de agora.

Sobre gravação, a orientação da nossa casa é clara: não grave áudio da consulta sem autorização da casa, e médium incorporado não se filma. Isso não é capricho. O médium está num estado de entrega e não deve ser exposto, nem o que outro consulente falou ali do lado. Pergunte ao cambone antes de qualquer registro. Na dúvida, não grave e escreva depois.

Uma ação por semana

Orientação que fica no caderno não é orientação, é lembrança.

A cada consulta, escolha uma coisa da terceira coluna e faça naquela semana. Uma só. Se o guia falou de perdão, a ação pode ser um telefonema. Se falou de cuidado com o corpo, pode ser dormir uma hora mais cedo por cinco dias. Se falou de boca, pode ser um dia sem comentar a vida de ninguém.

Anote ao lado, quando fizer, o que aconteceu. Duas linhas bastam. É esse pedacinho que transforma o caderno num registro do seu caminho, e não num arquivo de frases bonitas.

Vale lembrar que quase toda orientação de guia aponta para o mesmo lugar: a reforma íntima, o trabalho diário de se tornar uma pessoa melhor do que ontem. Se quiser hábitos concretos para começar, escrevi um texto só disso em Reforma íntima na prática.

Releia depois de três e de seis meses

Marque no celular. Três meses depois da consulta, releia. Seis meses depois, releia de novo.

É aí que a coisa acontece. Muita frase que na hora pareceu vaga fica evidente quando a vida anda um pouco. E muita coisa que você jurou que era o assunto principal se revela detalhe.

Na releitura, use uma caneta de outra cor e marque três coisas: o que se cumpriu, o que você não fez e o que você entendeu errado na primeira leitura. Essa terceira marcação é a mais reveladora de todas.

Depois de um ano de caderno, você terá nas mãos algo que ninguém pode te dar: a sua própria história espiritual escrita por você, com data.

Quando você não entendeu nada

Acontece, e não significa que a consulta foi ruim.

Se você saiu sem entender, anote assim mesmo: as palavras que ficaram, soltas, sem tentar dar sentido. Escreva embaixo "não entendi" e deixe descansar. Volte em duas semanas. Muita coisa só abre depois.

Se continuar fechado, converse com a dirigente ou com alguém da casa. Não com o terreiro inteiro, não no grupo de mensagens: com quem tem responsabilidade de orientar. Consulta não é assunto de roda de conversa, nem a sua nem a dos outros.

E aqui vai o cuidado final, que eu repito muito aos filhos: não force sentido. Quem sai da gira decidido a encontrar significado em tudo acaba vendo recado em número de placa, em música do rádio, em sonho de qualquer madrugada. Isso cansa a cabeça e não é espiritualidade, é ansiedade.

Orientação verdadeira costuma ser simples, cabe numa frase e pede trabalho seu. Se a sua interpretação está exigindo três voltas para fazer sentido, provavelmente é interpretação sua, e o caderno com três colunas vai te mostrar isso preto no branco.

Se você ainda não consultou e está pensando em vir, leia antes O que é consulta com entidade e O que levar na primeira consulta. E, se quiser conhecer a casa, aqui no templo, em Cotia, a agenda das giras abertas está em Giras.

Perguntas frequentes

Posso anotar no celular em vez do caderno?

Pode. Use o que você realmente vai usar. O celular tem uma vantagem, que é estar sempre com você, e uma desvantagem, que é a notificação te puxando para fora. Escolha e mantenha num lugar só.

E se eu esquecer o nome do guia que me atendeu?

Escreva a linha: preto-velho, caboclo, baiano, exu, pombagira. Já ajuda muito na hora de reler. Da próxima vez, pergunte ao cambone depois do atendimento.

Devo mostrar as minhas anotações para alguém?

Só para quem tem responsabilidade de te orientar na casa, e só se você quiser. Consulta é assunto pessoal. Comparar anotação com outro consulente costuma confundir mais do que esclarecer.

É errado esquecer uma orientação?

Errado, não. Humano. Justamente por isso existe o caderno. Quando lembrar, retome de onde parou, sem culpa e sem se cobrar por ter demorado.

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