7 de julho de 2026 · 7 min de leitura
Crianças podem ir na gira de Umbanda?
Crianças podem ir na gira de Umbanda? Veja a partir de que idade, como preparar a criança, o que observar e quando é melhor deixar para outro dia.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
A pergunta chega quase toda semana, e quase sempre pelo mesmo caminho. A mãe quer vir na gira e não tem com quem deixar o filho. Ou então o contrário: a criança ouviu o som de um atabaque em algum vídeo, ficou encantada e pediu para vir junto.
Respondo logo: sim, criança pode ir na gira. Gira é como chamamos o trabalho espiritual do terreiro, a reunião em que os médiuns incorporam e a casa atende quem chega. Aqui no templo, em Cotia, criança na assistência não é exceção nenhuma. Faz parte da vida da casa.
Só que "pode" não é a mesma coisa que "qualquer criança, em qualquer gira, de qualquer jeito". Tem preparo, tem escolha de dia e tem bom senso. É sobre isso que quero conversar com você aqui.
Sim, a criança pode ir — com preparo
A assistência é a parte do terreiro onde fica quem vem visitar, separada da área em que os médiuns trabalham. É ali que a criança vai ficar, sempre ao lado do responsável.
O preparo que peço aos pais é simples e cabe em três frases: explique antes o que vai acontecer, escolha uma gira adequada e esteja disposto a sair da sala se a criança precisar.
Esse último ponto é o mais importante de todos. Quem traz criança assume que talvez não assista à gira inteira. Se a criança cansar, chorar ou ficar inquieta, o combinado é sair com ela, respirar um pouco lá fora e voltar quando estiver melhor. Ninguém vai te olhar torto por isso. A casa entende.
A partir de que idade costuma funcionar
Não existe idade mínima escrita em lugar nenhum, e cada criança tem o seu tempo. Mas, por experiência de muitos anos recebendo famílias, costumo dizer que a partir dos cinco ou seis anos a coisa flui bem melhor.
Nessa faixa a criança já entende uma explicação simples, já consegue ficar sentada um tempo razoável e já sabe avisar quando está incomodada.
Bebês e crianças bem pequenas também aparecem, principalmente em festas e em giras mais curtas, e são muito bem-vindos. Só que o adulto precisa saber, desde a porta, que vai passar boa parte da tarde cuidando, e não assistindo.
Acima dos dez anos, muitos acompanham a gira inteira com interesse genuíno, e fazem perguntas ótimas no caminho de casa.
Explique antes, em palavras simples
Criança não se assusta com o desconhecido quando o desconhecido foi apresentado antes. Então converse em casa, sem drama e sem mistério.
Pode ser mais ou menos assim:
- "A gente vai numa casa de religião, parecida com uma igreja, só que com tambor e com canto."
- "Lá tem gente de roupa branca que ajuda as pessoas."
- "Você vai ver adultos falando de um jeito diferente. Eles estão bem, é do trabalho deles."
- "Se você quiser sair, é só apertar a minha mão que a gente sai na hora."
Evite dois extremos: transformar a visita em história de terror e transformar em obrigação. Nenhum dos dois ajuda, e os dois deixam marca.
O barulho do atabaque e o lugar de sentar
O atabaque é o tambor que sustenta o canto da gira. Junto com as vozes, ele forma a curimba, que é o conjunto do canto e da percussão do terreiro. É bonito de ouvir — e é alto.
Para o adulto, aquele som costuma ser envolvente. Para uma criança pequena, o primeiro impacto pode ser susto. E não é nada espiritual: é volume mesmo.
Por isso oriento sempre:
- Sente perto da saída, não no meio da fileira. Assim você sai sem atravessar a sala inteira.
- Se der, fique um pouco mais longe dos atabaques na primeira visita.
- Avise a criança antes que vai ter tambor e que o tambor é forte.
- Se ela tapar os ouvidos, não corrija. Deixe. Muitas se acostumam em dez minutos e, na segunda visita, o tambor já virou a parte preferida da tarde.
O que levar e o que combinar antes
A lista é curta. Não é preciso levar nada de ritual, e nada é exigido de quem vem visitar.
Ajuda levar:
- Uma garrafinha de água.
- Um lanche leve, para comer fora da sala.
- Um brinquedo silencioso: livrinho, bichinho de pano, caderno e lápis de cor.
- Um casaco, porque a tarde pode esfriar.
E ajuda combinar antes três regras de convivência: falar baixo, não correr entre as pessoas e não passar na frente do congá, que é o altar do terreiro. Criança entende regra quando a regra é explicada com calma.
Celular com vídeo ligado, mesmo com fone, eu peço que fique guardado. Fotografar ou filmar a gira, só com autorização da casa.
Quando é melhor deixar para outro dia
Trazer criança é uma escolha que se faz em cada gira, não uma decisão para sempre. Tem dia em que a resposta é "hoje não", e isso não tem nada de errado.
Costumo orientar deixar para outro dia quando:
- A criança está doente, febril ou muito abatida.
- Está no horário de sono dela, ou a gira do dia vai ser longa.
- É uma gira de esquerda, aquela em que trabalham Exus e Pombagiras. Não por perigo nenhum, mas porque o tom do trabalho é mais firme e pede outra maturidade.
- A criança está atravessando um momento difícil e deixa claro que não quer ir.
- Você mesmo vai para uma consulta delicada e vai precisar de atenção inteira.
A agenda das giras abertas fica em Giras. Antes de vir com criança, vale conferir qual é o trabalho do dia.
Erês, passe e a festa das crianças da casa
Aqui entra a parte mais bonita. Na Umbanda existe uma linha de trabalho formada por espíritos que se apresentam com jeito de criança: são os Erês, também chamados de Crianças. Erê é exatamente isso, o espírito que trabalha na vibração infantil. Escrevi sobre eles em Erês na Umbanda e Cosme e Damião, e a linha está descrita em Crianças e Erês.
Numa gira de Erês a casa fica alegre: tem doce, tem brincadeira, tem riso solto. É, disparado, a gira em que criança se sente mais em casa. Temos também a festa das crianças, que reúne as famílias da casa e é uma tarde feita para elas.
Sobre o passe, que é a transmissão de energia feita pela entidade com imposição de mãos: criança pode tomar, sim, sempre com o responsável do lado. O guia sabe dosar. Muitas acham graça, algumas dormem no colo depois, e está tudo certo.
Uma coisa eu peço com firmeza: nunca obrigue. Se a criança não quiser tomar passe, não quiser dar a mão, não quiser chegar perto, respeite na hora, sem cara feia. Fé que entra empurrada não fica.
Se você mora por aqui e quer conhecer com a família, dá uma olhada na gira de Umbanda em Cotia e venha sem compromisso. Será uma alegria receber vocês.
Perguntas frequentes
Criança precisa ir de branco?
Não precisa. Branco é a roupa ritual de quem trabalha na corrente. Para quem vem na assistência, criança ou adulto, basta roupa confortável e discreta. Cor clara é sempre bem-vinda, mas não é exigência.
Existe idade mínima para entrar no terreiro?
Na nossa casa não existe idade mínima. O que existe é bom senso do responsável sobre o dia, o horário e o estado da criança naquela tarde. Outras casas podem ter combinados próprios, e vale perguntar antes.
E se a criança se assustar no meio da gira?
Saia com ela sem constrangimento, fique um pouco no pátio e volte se ela quiser. Se preferir ir embora, vá em paz. Ninguém vai cobrar explicação.
Criança que tem sensibilidade já pode desenvolver mediunidade?
Aqui na casa, não. Sinais na infância são comuns e não precisam assustar ninguém. Mas desenvolvimento mediúnico é compromisso de adulto, com preceito e disciplina, e por isso só começa na idade adulta. Com criança, o caminho é acolher, explicar e deixar crescer.
Para aprofundar
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