24 de agosto de 2026 · 6 min de leitura
Dúvidas de quem nunca entrou num terreiro de Umbanda
Dúvidas de quem nunca entrou num terreiro de Umbanda: as perguntas que mais ouço respondidas com calma, sem termo difícil e sem nenhum susto.
Mãe Lu (Lucila Celete)
Templo Espiritualista Filhos do Tempo · Cotia/SP · Dirigente: Mãe Lu (Lucila Celete)
Quase todo mundo que me procura pela primeira vez começa do mesmo jeito: "desculpa a pergunta boba, mas...". Não existe pergunta boba. Existe gente que nunca entrou num terreiro e que cresceu ouvindo histórias contadas por quem também nunca entrou.
Então reuni aqui as dúvidas que mais escuto, em blocos, na ordem em que elas costumam aparecer na cabeça de quem está pensando em visitar uma casa de Umbanda. Respondo sem termo difícil e sem susto.
Se você chegou até aqui, já venceu a parte mais pesada, que é a curiosidade misturada com receio. Vamos por partes.
Antes de ir
Preciso marcar? Na maioria das casas, não. As giras abertas, que são os trabalhos em que qualquer pessoa pode assistir e ser atendida, têm dia e horário divulgados. Aqui as nossas começam às 15h, e a agenda fica em Giras. Confirme sempre a data antes de sair de casa.
Preciso pagar? Não. O atendimento na gira não é cobrado, o passe não é cobrado e a consulta com o guia não se cobra. Você não precisa levar dinheiro para ser atendido.
O que eu visto? Roupa confortável e discreta, de preferência em cor clara. Os médiuns usam branco nas giras de direita e de desenvolvimento, e preto nas giras de esquerda, mas isso é roupa de quem trabalha. Visitante não precisa de roupa ritual. Detalhei tudo em Primeira vez no terreiro: o que levar, vestir e como agir.
Posso ir sozinho? Pode, e muita gente vai. Alguém da casa vai te receber e te mostrar onde sentar. Diga que é a sua primeira vez: isso facilita tudo.
Posso levar meu filho? Pode, com bom senso. Criança bem-vinda é criança acompanhada e capaz de ficar num ambiente de silêncio por um tempo. Se ela estiver doente, com sono ou muito agitada, fica melhor para outro dia.
Preciso levar alguma coisa? Não. Nem vela, nem flor, nem oferenda. Leve água, um casaco leve e as suas perguntas.
Dentro da gira
Vou ter que incorporar? Não. Incorporação é o trabalho dos médiuns da casa, que passam por um longo preparo. Quem está na assistência, que é a parte do salão reservada a quem vem receber, apenas assiste e é atendido.
É obrigatório tomar passe? Não. O passe é a limpeza energética feita pela entidade ou pelo médium, e você aceita se quiser. Pode simplesmente assistir a tarde inteira.
Vou ser obrigado a me converter? Não. Ninguém vai te pedir para mudar de religião, nem vai perguntar qual é a sua. Recebemos católicos, evangélicos, espíritas, pessoas sem religião nenhuma e curiosos. Todo mundo é recebido igual.
É perigoso? Não. Uma gira é um trabalho religioso organizado, com gente responsável conduzindo. Você vai encontrar canto, fumaça de ervas, conversa e muita gente pedindo ajuda para a própria vida. Respondo isso com serenidade porque não uso medo como argumento em nenhuma direção: nem para assustar quem vem, nem para assustar quem não vem.
Matam animal? A nossa casa não pratica sacrifício animal. Outras tradições religiosas têm outros fundamentos, com história e sentido próprios, e isso se respeita sem julgamento. Aqui trabalhamos com ervas, velas, água, flores e alimento.
Posso tirar foto? Só com autorização da casa. Médium incorporado não deve ser fotografado nem filmado. Mantenha o celular guardado e no silencioso.
Quanto tempo dura? Varia conforme o número de pessoas atendidas. Reserve a tarde. Se precisar sair antes, saia com discrição, sem atravessar o meio do salão.
E se eu chorar? Chorar é comum e ninguém vai estranhar. Muita gente chega segurando coisa demais e o ambiente afrouxa esse nó. Se quiser, um cambone, que é o auxiliar da gira, te leva um copo de água.
E se eu não sentir nada? Também é comum, e não significa nada de ruim. Sensação não é medida de fé nem de merecimento. Tem gente que sente muito na primeira vez e pouco na décima.
Sobre os guias e a consulta
Quem atende na consulta? São as entidades que trabalham na casa, incorporadas nos médiuns: caboclos, pretos-velhos, crianças, boiadeiros, baianos, marinheiros, ciganos, exus e pombagiras, conforme a gira do dia.
Posso perguntar qualquer coisa? Pode perguntar sobre a sua vida, suas escolhas, seus caminhos. O que um guia sério não faz é prometer resultado, mandar você interferir na vontade de outra pessoa, ou dizer que você precisa de algo urgente para não acontecer desgraça. Nada disso tem lugar numa casa cuidadosa.
A entidade vai me dizer o meu futuro? Não é esse o trabalho. Orientação não é previsão. O guia costuma mostrar o que você não está querendo ver e apontar o que depende de você.
E se a entidade falar de saúde? Você vai ouvir, sempre, que a Umbanda caminha junto com o acompanhamento médico e psicológico, nunca no lugar dele. Remédio não se larga por orientação espiritual.
Preciso saber saudar? Não. Você vai ouvir Saravá, Okê Arô, Laroyê, Odoyá e outras saudações. Se quiser repetir, repita. Se não souber, um bom-dia resolve.
Quatro palavras que você vai escutar
Gira é o trabalho espiritual da casa: o encontro com canto, defumação, chegada dos guias, passes e consultas.
Congá é o altar do terreiro, onde ficam as imagens, as velas e as firmezas da casa. Não se passa na frente dele sem necessidade e não se mexe em nada ali.
Cambone é o auxiliar que fica ao lado do médium incorporado, servindo o guia e ajudando quem consulta.
Curimba é o canto e o toque dos atabaques que sustentam a gira. É o que você vai escutar do começo ao fim.
Depois da gira
Posso voltar quando quiser? Pode. Não existe obrigação de frequência, nem lista de presença, nem cobrança. Volte se sentir vontade, na semana que vem ou daqui a seis meses.
Preciso me filiar a alguma coisa? Não. Frequentar a assistência não cria vínculo formal nenhum. Quem decide fazer parte da corrente de trabalho conversa com a casa e faz isso com calma, depois de um bom tempo de convivência.
O que faço ao chegar em casa? Beba água, coma algo leve, descanse. Evite discussão e ambiente pesado logo depois. Anote o que ouviu na consulta, porque a memória embaralha rápido.
E se eu sair com mais dúvidas do que cheguei? Ótimo sinal. Dúvida é o começo de todo estudo sério. Pergunte, leia, volte e pergunte de novo.
Se quiser um panorama do que acontece do começo ao fim, leia Gira aberta: o que esperar na sua primeira vez e a página Primeira vez na Umbanda.
E se bater vontade de conhecer de perto, venha. Aqui no templo, em Cotia, você será recebido sem pergunta constrangedora e sem nenhuma obrigação. Conheça o templo, veja como funciona a nossa gira de Umbanda em Cotia e a página do terreiro de Umbanda em Cotia. A porta fica aberta.
Perguntas frequentes
Posso ir só para assistir, sem falar com ninguém?
Pode. Muita gente faz exatamente isso na primeira vez. Você senta na assistência, acompanha o trabalho e vai embora. Ninguém vai te chamar para nada que você não queira.
Sou de outra religião e minha família não sabe. Tem problema em ir?
Da nossa parte, nenhum. Não pedimos que você abandone sua fé nem contamos sua visita a ninguém. Como conversar em casa é outra questão, e ela merece calma e sinceridade.
Tem alguma regra que eu possa quebrar sem querer?
Poucas, e todas simples: celular guardado, não entrar na área de trabalho dos médiuns sem ser chamado, não passar diante do congá e não tocar em médium incorporado. Se errar, alguém orienta com tranquilidade.
Posso levar uma pessoa idosa ou com dificuldade de locomoção?
Pode, e é bom avisar antes para a casa reservar um lugar adequado. Sempre há alguém disponível para ajudar a acomodar quem precisa.
Para aprofundar
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